Mamma Mia!: das ilhas gregas à construção de Kalokairi

A hospedaria de Donna parece pertencer à mesma ilha que reúne praias, embarcações e uma capela sobre a rocha.

Entretanto, parte desse ambiente foi construída em Pinewood, no Reino Unido, enquanto as filmagens na Grécia forneceram paisagens externas.

Kalokairi, a ilha fictícia de Mamma Mia!, ganha continuidade na tela pela combinação desses espaços.

Lançado em 2008 e dirigido por Phyllida Lloyd, o filme transporta para o cinema uma história construída com canções do ABBA.

Meryl Streep interpreta Donna, e Amanda Seyfried vive Sophie, a filha que procura descobrir quem é seu pai antes do casamento.

A reunião familiar organiza a narrativa, enquanto a ilha oferece os caminhos pelos quais personagens, lembranças e encontros passam a se conectar.

Kalokairi e os lugares que a representam

Kalokairi pertence à história do filme. Skopelos e Skiathos, por sua vez, são ilhas gregas utilizadas nas filmagens, ao lado da região continental de Pelion.

Essa distinção permite entender por que visitar um dos endereços da produção não equivale a encontrar todo o território percorrido pelos personagens.

Uma locação cinematográfica pode aparecer com seu próprio nome ou representar outro lugar.

Em Mamma Mia!, a identidade de Kalokairi reúne imagens de diferentes espaços sob uma referência comum.

O espectador acompanha os deslocamentos dentro da narrativa sem precisar conhecer as distâncias entre os pontos utilizados pela equipe.

A consequência aparece quando o filme inspira uma viagem. Uma praia pode ser visitada, mas a relação que mantém na tela com uma hospedaria ou outro cenário depende da construção cinematográfica.

O roteiro de filmagem e o roteiro turístico respondem, portanto, a perguntas diferentes: o primeiro organiza a produção das imagens; o segundo precisa considerar a localização e o acesso aos lugares reais.

Skopelos: a vegetação também compõe a imagem da ilha

Skopelos integra as Espórades do Norte e apresenta uma paisagem em que florestas de pinheiros se aproximam do mar.

Essa presença vegetal diferencia sua imagem da ideia de uma ilha grega composta exclusivamente por encostas secas, construções brancas e superfícies quase sem árvores.

O contraste entre vegetação, rocha e água oferece elementos para observar o filme com mais atenção.

As paisagens externas não são intercambiáveis apenas porque pertencem à Grécia: cada enquadramento seleciona uma combinação de formas, cores e ocupações que participa da aparência atribuída a Kalokairi.

Fora da narrativa, Skopelos conserva povoações, igrejas e atividades que não se resumem às filmagens.

Sua apresentação turística oficial destaca casas com telhados de telhas, ruas estreitas e construções distribuídas pela encosta da cidade principal.

Conhecer esse conjunto permite ampliar a visita para além dos pontos reconhecidos pelos fãs e perceber a ilha como um território habitado.

Kastani e Agios Ioannis em Kastri

Entre os lugares associados a Mamma Mia!, a divulgação oficial do turismo grego identifica Kastani e Agios Ioannis em Kastri.

A praia e a capela sobre a rocha oferecem experiências espaciais distintas: uma abre a visão junto à água; a outra concentra a atenção em uma construção elevada, cercada pelo mar.

Na leitura visual proposta aqui, o interesse dessa comparação está na mudança de escala.

A praia permite observar a relação horizontal entre margem, vegetação e horizonte.

A rocha de Agios Ioannis conduz o olhar para cima, acompanhando o caminho até a capela.

São configurações que ajudam a compreender como uma paisagem pode organizar a atenção antes mesmo de qualquer informação sobre os personagens.

A identificação de uma locação, porém, não transforma toda fotografia do lugar em registro do filme.

Uma imagem posterior documenta a paisagem no momento em que foi produzida.

Também não permite concluir, sozinha, quais partes de uma sequência foram gravadas naquele endereço.

Villa Donna e a Grécia construída em Pinewood

A participação dos estúdios completa o percurso pelas locações.

Pinewood registra que o 007 Stage recebeu o cenário de uma vila grega para Mamma Mia!, enquanto a documentação de bastidores mostra estruturas de Villa Donna construídas no estúdio.

Esse trabalho dá forma física aos espaços necessários à encenação.

Paredes, passagens e áreas de circulação precisam funcionar para os atores e para os enquadramentos, mesmo quando representam uma construção associada a outro território.

A aparência de uma hospedaria mediterrânea nasce, nesse caso, de decisões tomadas dentro de uma infraestrutura de produção britânica.

A mesma diferença entre lugar filmado e lugar representado aparece em Bailarina: as locações reais do universo John Wick.

No artigo, a sinalização preparada para uma cidade da Tchéquia participa da representação de outro endereço.

Comparar os exemplos ajuda a reconhecer como elementos construídos se integram a lugares existentes para atender à narrativa.

As canções já organizavam a história antes do cinema

O musical estreou em Londres em 1999, antes de chegar à Broadway e às telas. Sua criação reuniu a produtora Judy Craymer, a autora Catherine Johnson e a diretora Phyllida Lloyd, que retomaram suas funções na adaptação cinematográfica.

No relato de Craymer, o projeto começou pela percepção de que as canções do ABBA ofereciam possibilidades dramáticas.

A proposta entregue a Johnson relacionava músicas de caráter mais juvenil a outras marcadas por experiências amorosas maduras.

Essa diferença contribuiu para a construção de uma história que aproxima duas gerações de mulheres.

A ilha recebe uma trama que já possuía relações familiares, conflitos e funções musicais.

Sua representação precisa acomodar esse movimento, oferecendo espaços para encontros coletivos e momentos de intimidade.

O interesse das locações cresce quando o leitor observa como elas participam da ação, em vez de tratá-las apenas como imagens de um destino desejável.

O que mudou quando o musical chegou à tela

A história oral publicada pela Vogue reúne depoimentos de profissionais que participaram da adaptação.

Uma das possibilidades apontadas é a ampliação dos espaços de atuação: em “Honey, Honey”, por exemplo, a paisagem marítima permite levar a personagem para além da parede que representava Villa Donna no palco.

A passagem para o cinema também exigiu reorganizar relações entre personagens e músicas.

Catherine Johnson explica que “Our Last Summer”, apresentada no teatro como um dueto entre Harry e Donna, ganhou outra função no filme ao aproximar Sophie dos três possíveis pais.

Essas escolhas mostram que a adaptação envolve mais do que transportar um espetáculo para uma paisagem externa.

Uma mudança de interlocutor altera o significado de uma canção; uma mudança de espaço modifica a maneira de acompanhar a ação.

A construção de Kalokairi participa desse processo ao reunir os ambientes pelos quais a história pode se expandir.

Na continuação, Vis participa da representação da ilha

Mamma Mia! Here We Go Again, lançado em 2018 e dirigido por Ol Parker, acrescenta outro território ao percurso das filmagens.

O programa oficial Filming in Croatia registra 24 dias de gravação na ilha croata de Vis, com a participação de mais de 270 profissionais e figurantes do país.

A sequência continua vinculada ao universo de Kalokairi, mas seu mapa de produção não reproduz o do primeiro filme.

Quem procura os locais associados às duas obras precisa distinguir as filmagens gregas da participação croata, sem supor que todos os endereços pertencem ao mesmo arquipélago.

Essa separação permite voltar a Mamma Mia! com duas formas de atenção.

Uma acompanha a ilha como espaço da história; a outra reconhece o trabalho que combina lugares, construções e escolhas de encenação.

Durante uma viagem, é a segunda que ajuda a entender por que uma paisagem familiar pode ser encontrada, enquanto o caminho até o próximo cenário precisa ser reconstruído no mapa.

Para explorar mais

Imagem destacada

Capela de Agios Ioannis em Kastri, sobre uma formação rochosa junto ao mar, em Skopelos, na Grécia. Fotografia: Long lasting memories, via Wikimedia Commons, sob licença CC BY-SA 4.0.

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