Na história oficial da Oktoberfest de Blumenau, os clubes de caça e tiro aparecem como responsáveis por popularizar os trajes utilizados na festa.
Quando o evento começou, em 1984, essas roupas tinham uso limitado na cidade.
Com a participação dos clubes, passaram a ser produzidas e valorizadas como parte da celebração.
Esse detalhe ajuda a compreender a Oktoberfest no Brasil. A relação com a imigração alemã existe, mas a festa também criou ocasiões, formas de participação e símbolos que ganharam importância décadas depois da chegada dos imigrantes.
Para acompanhar essa história, é preciso distinguir a formação das comunidades da organização dos eventos que hoje as representam.
Neste artigo
Uma festa de Munique, diferentes histórias de imigração
A Oktoberfest surgiu em Munique, na Baviera, em 1810. Sua origem está ligada ao casamento do príncipe Ludwig, futuro rei Ludwig I, com a princesa Therese de Saxe-Hildburghausen.
As comemorações incluíram uma corrida de cavalos numa área que recebeu o nome de Theresienwiese em homenagem à noiva.
A celebração cresceu e mudou ao longo do tempo. A primeira edição ainda não tinha as tendas de cerveja e os brinquedos que se tornariam conhecidos internacionalmente.
A própria festa que serviu de referência às versões brasileiras já era resultado de sucessivas transformações.
No Brasil, São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, tornou-se um marco da colonização alemã em 1824. Outros núcleos se desenvolveram em períodos posteriores, com diferentes origens regionais e experiências de instalação.
A expressão “imigração alemã” reúne trajetórias que não podem ser reduzidas a uma única comunidade ou a um conjunto uniforme de costumes.
Blumenau, por exemplo, começou como colônia em 1850.
A história municipal registra a chegada de dezessete colonos em 2 de setembro daquele ano e reconhece que a região já era habitada por povos indígenas, entre eles Xokleng e Kaingang.
A formação da cidade ocorreu nesse território anteriormente ocupado, e não num espaço sem história.
A existência dessas comunidades ajuda a explicar por que referências germânicas encontraram espaço nas festas.
Entretanto, não demonstra que as atuais Oktoberfests tenham sido realizadas continuamente desde o século XIX. Seus projetos e primeiras edições pertencem a outro momento.
Blumenau: os planos antecederam as enchentes
A Oktoberfest de Blumenau estreou em 1984, num contexto marcado pelas enchentes que atingiram a cidade.
A associação entre festa e recuperação tornou-se parte importante de sua memória, mas precisa ser situada com cuidado.
Segundo a organização, desde 1977 já havia tentativas de viabilizar um evento com retorno turístico. A proposta era discutida pela administração pública e pelo comércio local antes da primeira edição.
As enchentes ajudam a compreender as circunstâncias em que a festa se consolidou; não explicam, sozinhas, a origem do projeto.
A participação dos clubes de caça e tiro aproximou o evento de associações locais e deu visibilidade pública a referências culturais.
O caso dos trajes mostra como essa atuação também ampliou práticas: vestir-se para a Oktoberfest passou a integrar a experiência de participação.
Os desfiles prolongam essa relação para além dos pavilhões. Na Rua XV de Novembro, clubes, grupos folclóricos, bandas e participantes apresentam roupas, música e alegorias diante do público.
A cidade recebe uma celebração que depende tanto da organização do evento quanto da mobilização de quem desfila.
Santa Cruz do Sul: da feira econômica à festa anual
Em Santa Cruz do Sul, a Oktoberfest começou em 1984 e encontrou uma estrutura ligada à Festa Nacional do Fumo, a Fenaf. O parque já utilizado para esse evento tornou-se o espaço da nova celebração.
A trajetória ajuda a perceber uma diferença em relação a Blumenau. Em Santa Cruz, a história da festa se relaciona com equipamentos e atividades de uma cidade cuja economia foi fortemente marcada pelo tabaco.
O espaço de exposição e encontro passou a receber uma programação voltada à cultura germânica e ao turismo.
Essa programação também permite observar a convivência entre referências locais e entretenimento de circulação nacional.
Na edição de 2024, por exemplo, apresentações de corais, danças folclóricas e jogos germânicos ocorreram no mesmo evento que recebeu shows de Lauana Prado e Alok.
A combinação evidencia escolhas da organização sobre públicos e atrações.
A festa oferece ocasiões para apresentar práticas culturais, ao mesmo tempo que participa do mercado de grandes eventos. A presença de uma atração não explica nem substitui o significado das demais.
Igrejinha: o trabalho comunitário participa da tradição
A Oktoberfest de Igrejinha, no Vale do Paranhana, começou em 1988. Sua organização destaca a homenagem aos antepassados e a divulgação de referências culturais dos imigrantes alemães da região.
O voluntariado ocupa uma posição central nesse modelo. Moradores participam da preparação ao longo do ano e das atividades realizadas durante a festa.
Parte dos resultados financeiros é destinada a entidades locais e regionais.
A Associação de Amigos da Oktoberfest de Igrejinha, a Amifest, foi fundada em 1994 e assumiu a organização dos eventos ligados à celebração.
A entidade apresenta os resultados de cada edição e realiza repasses a instituições de áreas como saúde, educação, segurança e cultura.
Nesse contexto, a relação da comunidade com a Oktoberfest envolve cozinhar, atender, organizar e trabalhar em conjunto.
A repetição dessas tarefas cria uma experiência compartilhada que também pode ser transmitida entre gerações. A continuidade da festa depende de pessoas que renovam sua participação.
O que a reinvenção permite compreender
As três trajetórias mostram que o nome Oktoberfest não corresponde a um modelo brasileiro único.
Blumenau articulou um projeto turístico com associações culturais; Santa Cruz do Sul aproveitou uma estrutura de eventos ligada à economia local; Igrejinha desenvolveu uma organização fortemente apoiada no voluntariado.
Isso amplia a pergunta sobre sua importância: além dos símbolos apresentados, interessa compreender quem organiza, trabalha e participa.
Reinvenção, nesse caso, significa acompanhar escolhas concretas. Uma roupa ganha uso festivo, uma associação organiza um desfile e um parque recebe novas atividades.
A relação com o passado se estabelece por essas ações, sem exigir que cada elemento reproduza integralmente a vida dos imigrantes.
A transformação de costumes também aparece na história do Halloween na Irlanda, em que objetos e formas de participação mudaram ao circular entre lugares.
As trajetórias são diferentes, mas ambas permitem investigar o que foi transmitido, o que mudou e quais documentos sustentam essa relação.
Na Oktoberfest no Brasil, a memória da imigração encontra projetos urbanos, trabalho comunitário e turismo.
Observar essas dimensões permite compreender cada festa a partir de sua própria história, sem confundir a chegada dos colonos com a criação dos eventos atuais.
Para explorar mais
- Acervo histórico da Oktoberfest de Blumenau: explore registros e seções sobre desfiles, representantes da festa e memórias de participantes.
- Jornada para o Brasil, do Instituto Martius-Staden: conheça uma exposição digital sobre as migrações de povos de língua alemã, com fotografias e documentos.
- História e voluntariado na Oktoberfest de Igrejinha: consulte as edições anteriores e a apresentação do modelo comunitário de organização.
Imagem destacada
Participantes com trajes festivos dançam na Oktoberfest de Blumenau, em registro de 2011. Fotografia “Dança tipica na Oktoberfest”, de Vitor Pamplona, via Wikimedia Commons, sob licença CC BY 2.0.
