Ao observar uma imagem de satélite, um círculo no deserto pode parecer a marca de algo que caiu do espaço.
Anéis ao redor de um centro e bordas elevadas reforçam essa impressão. Mas os círculos na África mostram como formas semelhantes podem surgir de processos muito diferentes.
Na Mauritânia, os anéis de Richat resultam da exposição e do desgaste de camadas rochosas. No mesmo país, Tenoumer é uma cratera de impacto.
No Chade, as depressões de Emi Koussi fazem parte de um vulcão. Na África do Sul, Vredefort guarda marcas de uma colisão antiga, embora a cratera original tenha sido profundamente desgastada.
Comparar esses lugares ajuda a compreender por que a forma é apenas o começo da investigação. Para explicar cada paisagem, precisamos relacionar o desenho visível às rochas que o compõem e às mudanças ocorridas ao longo do tempo.
Neste artigo
Uma cratera também pode ser vulcânica
Cratera não é sinônimo de impacto. O termo pode designar uma depressão, uma área mais baixa que o terreno ao redor, produzida por diferentes processos. Entre eles estão impactos e atividade vulcânica.
Nos vulcões, algumas crateras se formam quando explosões lançam materiais para fora. Outras depressões surgem pelo abatimento do terreno.
Uma grande depressão associada ao colapso vulcânico recebe o nome de caldeira. Ela pode se formar quando parte do magma, o material rochoso fundido no subsolo, deixa seu reservatório e o terreno acima cede.
Isso não significa que o subsolo seja uma caverna vazia sobre a qual o vulcão simplesmente desaba. É uma explicação resumida de mudanças no armazenamento do magma e na sustentação das rochas.
Em sentido amplo, uma caldeira pode ser considerada um tipo de cratera. O nome específico ajuda a distinguir sua formação. A pergunta decisiva, portanto, é qual processo produziu aquela depressão.
Richat: como camadas de rocha viraram anéis
A Estrutura de Richat fica no planalto de Adrar, na Mauritânia. Conhecida como Olho do Saara, tem aproximadamente 40 quilômetros de diâmetro e aparece nas imagens de satélite como uma sequência de anéis.
São anéis concêntricos, ou seja, organizados aproximadamente ao redor de um mesmo centro. Diferentemente de uma espiral, eles não constituem uma linha contínua que se afasta desse centro.
Sua aparência levou à hipótese de um impacto. A explicação geológica identifica, porém, um domo erodido. Domo é uma estrutura em que as camadas rochosas se arqueiam, ficando elevadas na região central.
Em Richat, essa elevação está associada à entrada de material magmático no subsolo. O processo deformou as camadas acima, sem precisar abrir uma cratera na superfície.
Depois, o desgaste removeu partes da estrutura e expôs diferentes camadas. Como as rochas não resistem igualmente à erosão, algumas permaneceram como faixas elevadas, enquanto outras foram mais rebaixadas. Erosão envolve a remoção e o transporte de materiais pela ação de agentes como água e vento.
O desenho dos anéis combina, assim, duas etapas: a disposição arqueada das camadas e seu desgaste desigual. As faixas visíveis não são a borda de um buraco escavado por um meteorito.
Tenoumer: rochas fundidas por um impacto
Também na Mauritânia, Tenoumer apresenta uma depressão circular com cerca de 1,9 quilômetro de diâmetro e uma borda aproximadamente 100 metros elevada.
Sua origem chegou a ser atribuída a um vulcão. Parte dos materiais encontrados parecia lava resfriada, o que tornava essa interpretação plausível.
O exame das rochas mostrou outra história: havia material fundido pelo impacto. Uma colisão pode produzir condições capazes de derreter parte das rochas atingidas.
Depois de resfriado, esse material pode se parecer com uma rocha vulcânica.
A semelhança visual, portanto, apareceu duas vezes. O círculo chamava a atenção na paisagem; a rocha fundida sugeria vulcanismo. A identificação da origem exigiu investigar os materiais e sua relação com a estrutura.
Tenoumer também mostra por que a idade da rocha e a idade da cratera precisam ser separadas. O terreno atingido é muito mais antigo que a depressão aberta nele.
A síntese do Earth Observatory apresenta uma estimativa de aproximadamente 10 mil a 30 mil anos para o impacto.
Uma rocha pode existir por um período muito longo antes de ser quebrada, deslocada ou fundida. Datar o material original não equivale, automaticamente, a datar o acontecimento que mudou sua forma.
Emi Koussi: caldeiras dentro de um vulcão amplo
No norte do Chade, no conjunto montanhoso do Tibesti, Emi Koussi é um vulcão em escudo. Esse nome descreve uma estrutura ampla, com encostas relativamente suaves, em vez do cone estreito frequentemente associado aos vulcões.
Sua formação inclui o acúmulo de lavas e de materiais lançados por erupções explosivas. No topo, grandes caldeiras se sobrepõem, formando uma depressão de aproximadamente 12 por 15 quilômetros.

Essas dimensões mostram que estamos observando uma parte extensa do vulcão. Dentro dela existe outra caldeira, menor, chamada Era Kohor.
É preciso distinguir o vulcão inteiro das depressões de seu topo. Uma imagem recortada apenas no círculo central pode esconder as encostas e os materiais que ajudam a explicar sua origem.
Nesse caso, as formas estão ligadas à atividade vulcânica e às mudanças na estrutura do vulcão. O magma alimentou erupções; a saída de materiais e os colapsos participaram da formação das depressões.
Não há uma data precisa estabelecida para a última erupção. O Global Volcanism Program registra essa informação como indeterminada. A presença de uma área termal na encosta sul, onde há manifestação de calor, não permite deduzir quando ocorreu a última erupção.
A Cratera de Ngorongoro, na Tanzânia, oferece outra comparação: apesar do nome consagrado, também é uma caldeira vulcânica. Ali, a forma do terreno ajuda a compreender a distribuição de água, vegetação e animais.
Vredefort: quando a cratera se desgasta, mas as marcas ficam
Em Vredefort, na África do Sul, o impacto ocorreu há cerca de 2 bilhões de anos. Desde então, a erosão removeu grande parte da estrutura formada pela colisão.
Por isso, a paisagem atual não conserva uma cratera intacta. O Domo de Vredefort é uma parte remanescente de uma estrutura de impacto muito maior. Rochas antes situadas em profundidade ficaram expostas à medida que os materiais acima foram removidos.
Como reconhecer o impacto se o buraco original já não está preservado?
A resposta está também nas rochas. A documentação da UNESCO destaca alterações em seus minerais produzidas pelo choque, além de feições chamadas cones de estilhaçamento. São formas de fratura associadas à passagem de ondas de choque pelas rochas.
Algumas evidências podem ser observadas nos afloramentos, os trechos de rocha expostos na superfície. Outras exigem examinar os minerais em detalhe. Uma fotografia ampla da paisagem não mostra tudo o que sustenta a identificação.
Vredefort e Richat ajudam a desfazer confusões diferentes. Richat apresenta anéis bem visíveis sem ser uma cratera de impacto. Vredefort conserva evidências de impacto mesmo depois do profundo desgaste da cratera original.
O que observar nos círculos na África
Os quatro exemplos permitem relacionar a forma atual ao processo que a produziu:
| Lugar | O que aparece na paisagem | O que explica a forma |
|---|---|---|
| Richat, Mauritânia | Anéis de faixas rochosas elevadas | Camadas arqueadas, expostas e desgastadas de maneira desigual |
| Tenoumer, Mauritânia | Depressão circular com borda elevada | Impacto, acompanhado de fusão de parte das rochas atingidas |
| Emi Koussi, Chade | Grandes depressões no topo de um vulcão | Atividade vulcânica e colapsos |
| Vredefort, África do Sul | Partes expostas de uma estrutura antiga | Impacto seguido de um longo período de erosão |
A distância de observação também muda o que conseguimos reconhecer. Uma imagem de satélite reúne os anéis de Richat num único desenho. No chão, uma pessoa pode observar apenas uma faixa rochosa, sem perceber o conjunto de dezenas de quilômetros.
Em Vredefort, ocorre uma situação complementar: aproximar-se das rochas permite encontrar evidências que desaparecem numa vista ampla. A imagem do conjunto e o exame dos materiais respondem a perguntas diferentes.
O tempo modifica essa leitura. A idade das rochas, o momento de um impacto ou de uma erupção e o aspecto atual do relevo não são a mesma coisa. Uma forma pode ter surgido rapidamente e depois passar milhões de anos sendo transformada.
Ao encontrar outro círculo numa imagem, vale perguntar: ele delimita uma depressão ou acompanha camadas expostas? Faz parte de uma estrutura maior? Que evidências existem nas rochas? Essas perguntas ajudam a passar do desenho que chama a atenção para a história que o explica.
Fontes e referências
- NASA Earth Observatory – Eyeing the Richat Structure, 2026. Formação do domo e erosão desigual das camadas.
- NASA Earth Observatory – Richat Structure, 2018. Organização e exposição das camadas rochosas.
- NASA Earth Observatory – Tenoumer Crater, Mauritania, 2008. Evidências de impacto e estimativa de idade.
- NASA Earth Observatory – Emi Koussi Volcano, Chad, 2011. Forma do vulcão e caldeiras.
- Smithsonian Institution, Global Volcanism Program – Emi Koussi. Classificação, descrição geológica e informações sobre atividade eruptiva.
- UNESCO – Domo de Vredefort. Estrutura de impacto, erosão e evidências nas rochas.
- USGS – Caldera or crater: what’s the difference?, 2024. Formação e distinção entre crateras e caldeiras.
Para explorar mais
- NASA Earth Observatory – Imagem e explicação de Richat: observar os anéis em relação ao planalto e às areias do entorno.
- Global Volcanism Program – Registro de Emi Koussi: consultar a descrição do vulcão e as informações disponíveis sobre sua atividade.
- UNESCO – Documentação de Vredefort: conhecer as evidências de impacto preservadas no lugar.
Imagem Destacada
Anéis da Estrutura de Richat, na Mauritânia, entre superfícies rochosas e areias do deserto. Imagem: Lauren Dauphin, NASA Earth Observatory, com dados Landsat do USGS, via NASA. Reutilização editorial conforme as diretrizes de imagens e mídia da NASA.
