Uma antiga estufa de fumo utilizada para produzir vinho. Uma casa construída especialmente para receber visitantes. Objetos de família organizados em um memorial.
No interior de Gramado, essas situações mostram como o turismo acrescenta funções a espaços ligados à moradia e ao trabalho rural.
A transformação não acontece apenas quando uma lavoura dá lugar a outro empreendimento. Também ocorre quando a propriedade mantém atividades agrícolas e passa a vender alimentos, oferecer refeições ou apresentar sua história a grupos.
Para compreender esse processo, o artigo acompanha exemplos de Linha Ávila, Linha Furna, Linha Bonita e Linha 28. Essa seleção permite observar mudanças concretas, sem representar todas as propriedades nem todas as experiências do campo gramadense.
Neste artigo
O campo já mantinha relações com a cidade
O interior de Gramado não permaneceu isolado até a chegada dos passeios turísticos.
Na dissertação Um cheiro do vinho: presença italiana em Gramado, de 2006, Gilnei Ricardo Casagrande investigou trajetórias de imigrantes italianos e descendentes com documentos e história oral.
A pesquisa descreve a produção para subsistência, a comercialização de excedentes e a participação de descendentes em empregos urbanos. Quando o lote rural se tornava insuficiente para sustentar a família, o trabalho assalariado podia integrar suas estratégias de vida.
Esse percurso ajuda a evitar uma interpretação simplificada: agricultura, indústria, comércio e serviços não pertencem necessariamente a histórias familiares separadas.
O turismo entra em um território que já conhecia deslocamentos e combinações de trabalho. Sua expansão acrescenta outras possibilidades, mas também novas tarefas e relações com o mercado.
Receber visitantes passa a fazer parte do trabalho
Uma propriedade pode cultivar frutas e, ao mesmo tempo, organizar degustações, comercializar geleias ou receber grupos para uma refeição.
O debate sobre turismo rural e pluriatividade, apresentado por Flávio Sacco dos Anjos e Nádia Velleda Caldas, ajuda a compreender essa combinação. A renda e o trabalho de uma família rural podem envolver atividades de diferentes setores.
Na prática, produzir alimentos e receber visitantes exigem trabalhos distintos. Além de cuidar da lavoura, alguém precisa explicar processos, preparar ambientes, atender pessoas e organizar vendas.
A diversificação também muda a relação com o tempo: a produção acompanha suas etapas, enquanto o atendimento precisa se articular à chegada dos grupos.
Portanto, abrir uma propriedade à visitação acrescenta uma atividade econômica. Para saber seu peso na vida familiar, seria necessário conhecer custos, receitas, divisão das tarefas e participação de cada integrante.
Uma estufa pode ganhar outra função
Em Linha Ávila, a Cantina Nonno Giovanni oferece um exemplo direto de mudança de uso.
Segundo a Secretaria de Turismo de Gramado, a produção de vinho artesanal ocupa uma antiga estufa de fumo desativada, em um ambiente próximo à casa dos responsáveis pelo estabelecimento.
O edifício continua ligado ao trabalho, mas recebe outra atividade. Sua trajetória permite relacionar o que existia anteriormente ao uso apresentado aos visitantes.
No mesmo roteiro, a propriedade da família Wagner mostra outra forma de transformação. O portal municipal descreve uma casa construída especialmente para receber turistas, cercada por morangueiros e árvores frutíferas.
Os dois casos são diferentes: um reaproveita uma estrutura; o outro acrescenta uma construção voltada à recepção.
Isso importa porque uma aparência rural não informa, sozinha, a idade ou a função original de um prédio. A história de cada espaço esclarece como ele passou a participar do turismo.
A produção agrícola também organiza a experiência
Na propriedade dos Wagner, o portal informa que a modalidade de colher e pagar pelas frutas acontece na época de produção.
Essa condição revela um encontro entre dois calendários: o da visitação e o agrícola. A colheita depende do desenvolvimento das plantas, não apenas da presença de interessados.
No Tour do Vale, em Linha 28, a apresentação da família Marcon combina cultivo de milho, manejo de animais, alimentos e um memorial familiar.
A atividade produtiva passa a ser também explicada e apresentada. O visitante conhece uma seleção de tarefas e ambientes, organizada para aquele encontro.
Essa seleção não equivale a acompanhar integralmente a rotina de trabalho. Uma demonstração, uma degustação e uma etapa produtiva em andamento oferecem informações diferentes sobre a propriedade.
| Exemplo documentado | Mudança observável |
|---|---|
| Cantina Nonno Giovanni | Reutilização de uma antiga estufa de fumo |
| Família Wagner | Construção destinada à recepção e visitação sazonal do pomar |
| Família Marcon | Apresentação conjunta de produção e memória familiar |
| Museu Fioreze | Coleção particular incorporada ao circuito de visitas |
Objetos e casas entram na apresentação da memória
No roteiro Raízes Coloniais, que percorre Linha Furna e Linha Bonita, a Casa Centenária e o Museu Fioreze acrescentam outra dimensão.
O portal municipal descreve a primeira como uma construção de madeira sobre porão de pedras. No segundo, apresenta uma coleção iniciada por Nelson Fioreze ainda jovem.
Uma casa preservada e um acervo reunido por um colecionador não são o mesmo tipo de registro. A casa permite investigar técnicas e usos dos ambientes; a coleção depende também de conhecer a procedência e a função dos objetos.
Ao receber público, esses espaços passam a participar de uma narrativa sobre o lugar. Escolhem-se peças, episódios e lembranças para apresentar.
Essa seleção pode valorizar conhecimentos familiares. Ao mesmo tempo, precisa ser reconhecida como uma apresentação construída no presente, sem pressupor que toda a vida rural permaneceu igual.
A distinção entre edifício histórico e escolhas posteriores de apresentação também aparece no artigo sobre herança e cenário nas cidades brasileiras.
O interior também é espaço de convivência
A vida rural ultrapassa o trabalho agrícola e a recepção turística.
A pesquisa de Casagrande examina o papel das capelas e das festas na convivência entre famílias. Esses espaços ajudavam a organizar encontros e relações comunitárias.
Essa dimensão impede reduzir o interior a um conjunto de atrações. Há lugares cujo sentido principal está na vida dos moradores, mesmo quando também despertam interesse de visitantes.

O produto rural também chega ao centro
A relação entre turismo e agricultura não exige que toda venda aconteça dentro da propriedade.
A Casa do Colono, na Praça das Etnias, comercializa produtos do interior no centro de Gramado, conforme a apresentação oficial do município. O deslocamento se inverte: o alimento chega ao consumidor urbano.
A Festa da Colônia oferece outro ponto de encontro. Em estudo publicado em 2022, Alvori Ahlert e Oscar Miguel Lehmann entrevistaram cinco agricultores familiares de confissão luterana que participavam do evento.
Nesse grupo, a pequena agroindústria apareceu como instrumento importante de produção e comercialização. A festa foi identificada como oportunidade de divulgação e valorização dos produtos na relação com o turismo.
O alcance da pesquisa precisa ser respeitado: cinco participantes não representam todas as famílias do município. Ainda assim, o estudo documenta um mecanismo concreto de aproximação entre produção rural e mercado turístico.
Transformar não significa beneficiar todos igualmente
O turismo pode abrir canais de venda, incentivar o reaproveitamento de edifícios e dar visibilidade a histórias familiares. Seus resultados, porém, dependem de como a atividade é organizada.
O relato do projeto municipal no Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora apresenta geração de renda e redução do êxodo rural como objetivos. Também registra ações de apoio à agroindústria e à comercialização.
Objetivos e ações não substituem uma avaliação dos efeitos em cada propriedade. Sem dados comparáveis, não é possível afirmar que todas aumentaram seus rendimentos ou conseguiram manter os jovens no campo.
Os exemplos do interior de Gramado mostram uma transformação mais precisa: espaços de produção, moradia e memória passaram a incorporar recepção, explicação e venda.
Reconhecer essa combinação permite compreender o campo como um lugar de trabalho e escolhas atuais, cuja história continua mudando.
Fontes e Referências
- Casagrande, Gilnei Ricardo. Um cheiro do vinho: presença italiana em Gramado. Dissertação de mestrado, PUCRS, 2006.
- Anjos, Flávio Sacco dos; Caldas, Nádia Velleda. Multifuncionalidade, turismo rural e pluriatividade: interfaces de um debate inacabado.
- Ahlert, Alvori; Lehmann, Oscar Miguel. Sustentabilidade ambiental e agricultura familiar: um estudo com luteranos/as envolvidos com a Festa da Colônia de Gramado-RS, 2022.
- Secretaria de Turismo de Gramado. Caminhos Linha Ávila.
- Secretaria de Turismo de Gramado. Tour Raízes Coloniais.
- Secretaria de Turismo de Gramado. Roteiro Tour do Vale.
- Secretaria de Turismo de Gramado. Praça das Etnias e Casa do Colono.
- Sebrae. Registro do projeto de Gramado no Prêmio Prefeitura Empreendedora.
Para explorar mais
- Pesquisa sobre a presença italiana em Gramado, na PUCRS: consulte a dissertação e suas fontes documentais e orais.
- Turismo rural no portal oficial de Gramado: conheça os espaços apresentados pela Secretaria de Turismo.
- Estudo sobre agricultores participantes da Festa da Colônia: aprofunde a relação entre agroindústria familiar, comercialização e turismo.
Imagem destacada
Áreas abertas e encostas arborizadas compõem a paisagem do Vale do Quilombo, entre Gramado e Canela. Crédito Yeuxpapilon, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
