O prêmio Nobel da Paz é entregue em Oslo porque Alfred Nobel confiou a escolha de seus vencedores a um comitê de cinco pessoas eleitas pelo Parlamento norueguês.
Essa determinação aparece em seu testamento e deu à premiação uma organização diferente daquela dos prêmios associados às instituições suecas.
A razão pessoal dessa escolha, porém, permanece desconhecida: Nobel não deixou uma explicação que permita afirmar por que preferiu a Noruega para essa responsabilidade.
Para compreender a presença do prêmio na capital norueguesa, é preciso separar três questões que frequentemente se confundem: a decisão registrada no testamento, o contexto político em que ela foi tomada e a escolha posterior do edifício onde acontece a cerimônia.
Oslo reúne essas histórias, mas a Prefeitura que hoje recebe os convidados não foi indicada por Nobel.
Neste artigo
O que Alfred Nobel determinou no testamento
Alfred Nobel assinou seu último testamento em Paris, em 27 de novembro de 1895.
O documento destinava recursos de sua fortuna à formação de um fundo cujos rendimentos deveriam financiar prêmios em cinco áreas: Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura e Paz.
Para esta última, descreveu atividades relacionadas à fraternidade entre as nações, à redução ou abolição dos exércitos permanentes e à promoção de congressos de paz.
O testamento também distribuiu a responsabilidade pela escolha dos premiados. Enquanto as demais áreas ficaram vinculadas a instituições suecas, a Paz foi atribuída ao comitê eleito pelo Storting, o Parlamento da Noruega.
A disposição estabeleceu quem deveria decidir sobre o prêmio; não especificou a Prefeitura de Oslo como cenário da entrega.
A ligação com a capital norueguesa se consolidou na implantação das instituições responsáveis e nas cerimônias que passaram a ocorrer ali.
Suécia e Noruega compartilhavam um rei
A escolha de uma instituição norueguesa ganha contexto quando se observa o mapa político da época. Em 1895, Suécia e Noruega pertenciam a uma união que existia desde 1814.
Compartilhavam o monarca, mas a Noruega conservava sua Constituição e seu Parlamento.
Portanto, Nobel atribuiu a responsabilidade a uma instituição que já possuía identidade e funções próprias dentro daquele arranjo.
Essa organização ajuda a compreender por que a nacionalidade sueca de Nobel não impedia uma atribuição ao Parlamento norueguês.
A união aproximava os dois reinos sem apagar suas diferenças institucionais, e essas diferenças apareceram na distribuição das responsabilidades pelos prêmios.
A união terminou em 1905, após decisões parlamentares, consulta popular e negociações entre os países.
O reconhecimento da independência norueguesa encerrou aquele vínculo monárquico e alterou as condições em que a Noruega exercia sua soberania.
A separação, entretanto, não desfez a atribuição estabelecida no testamento: o Nobel da Paz continuou sob responsabilidade do comitê norueguês.
Por que Nobel escolheu a Noruega?
A documentação permite explicar como a responsabilidade foi distribuída, mas não resolve completamente a pergunta sobre a motivação de Nobel.
O próprio site oficial do Nobel da Paz reconhece essa lacuna e apresenta hipóteses discutidas pelo historiador Geir Lundestad, antigo diretor do Instituto Nobel norueguês.
Uma possibilidade é que Nobel tenha desejado repartir as atribuições entre os dois reinos unidos. Outra considera o interesse demonstrado pelo Parlamento norueguês, na década de 1890, por iniciativas de solução pacífica de conflitos.
Lundestad também menciona a admiração de Nobel pelo escritor norueguês Bjørnstjerne Bjørnson, envolvido na defesa da paz.
Esses elementos tornam a escolha compreensível dentro de seu tempo, mas não comprovam uma intenção específica.
Por isso, apresentar a Noruega como uma escolha decorrente de sua suposta neutralidade ou de uma superioridade pacifista transformaria interpretações em certezas.
A resposta documental permanece mais delimitada: Nobel escolheu um comitê ligado, em sua formação, ao Parlamento norueguês; as razões que o levaram a essa decisão não foram esclarecidas por ele.
Quem escolhe o vencedor do Nobel da Paz?
O Comitê Nobel norueguês é formado por cinco membros eleitos pelo Storting para mandatos de seis anos, com possibilidade de renovação.
A eleição dos integrantes mantém a relação institucional prevista no testamento, enquanto o trabalho de avaliação e a decisão sobre os premiados pertencem ao próprio comitê.
Essa distinção é necessária porque a participação do Parlamento na composição do órgão pode levar à impressão de que o governo norueguês escolhe o vencedor.
O comitê se define como uma instituição privada e independente: cabe ao Parlamento eleger seus membros, sem dirigir a decisão sobre a premiação.
Sua origem parlamentar não deve ser confundida com uma escolha anual realizada pelo governo.
A escolha do laureado também acontece em momento diferente da entrega. O resultado é anunciado em outubro, enquanto a cerimônia ocorre em dezembro.
A cidade recebe, assim, duas etapas públicas distintas de um processo que envolve avaliação de candidaturas e deliberação do comitê.
Como a cerimônia chegou à Prefeitura de Oslo
A entrega acontece em 10 de dezembro, data da morte de Alfred Nobel, em 1896. Os primeiros prêmios foram concedidos em 1901, quando a capital norueguesa ainda era conhecida como Christiania.
A ligação da premiação com a cidade, portanto, antecede tanto seu nome atual quanto a utilização da Prefeitura como sede da cerimônia.
Nos primeiros anos, de 1901 a 1904, as decisões eram anunciadas em sessões do Parlamento, e os premiados recebiam a comunicação por escrito.
Entre 1905 e 1946, o Instituto Nobel norueguês acolheu as cerimônias. De 1947 a 1989, a entrega passou à
Aula da Universidade de Oslo, antes de chegar à Prefeitura, utilizada desde 1990. Essa sequência mostra que a sede atual resulta da história da organização do prêmio, e não de uma indicação do edifício no testamento.
Na cerimônia, o presidente do comitê apresenta os fundamentos da escolha e entrega a medalha e o diploma.
A presença da família real norueguesa integra a tradição do evento, mas não transfere ao monarca a responsabilidade pela seleção ou pela entrega formal do prêmio.
A mudança para a Prefeitura também respondeu à necessidade de acomodar um público maior do que aquele comportado pelo espaço anterior.
Os lugares do Nobel na cidade
A trajetória da premiação deixou referências em diferentes edifícios de Oslo.
O Parlamento remete à formação do comitê; o Instituto Nobel reúne funções de apoio à seleção e à organização dos eventos; a Aula universitária preserva a memória de décadas de cerimônias; e a Prefeitura concentra a entrega atual.
Percorrer esses lugares permite acompanhar a passagem de uma disposição testamentária para uma tradição pública incorporada à cidade.
O Centro Nobel da Paz acrescenta uma dimensão museológica a esse percurso. Instalado em uma antiga estação ferroviária próxima à Prefeitura, apresenta a história de Alfred Nobel e o trabalho dos laureados.
O museu oferece ao visitante uma forma de conhecer a premiação além do evento anual, enquanto o comitê e o Instituto mantêm suas funções próprias na organização do prêmio.
A presença do Nobel da Paz em Oslo nasceu, assim, de uma escolha institucional explícita e atravessou mudanças políticas e de endereço.
O que permanece sem resposta definitiva é a motivação pessoal de Nobel. Reconhecer esse limite permite compreender a história sem preencher o silêncio do testamento com uma explicação que ele não deixou.
Para explorar mais
- O testamento de Alfred Nobel: o documento que distribuiu as responsabilidades pelos prêmios.
- Por que a Noruega?: as hipóteses históricas apresentadas pela organização do Nobel da Paz.
- Os edifícios do Nobel em Oslo: um percurso histórico publicado pelo Centro Nobel da Paz.
Imagem destacada
Prefeitura de Oslo, com suas duas torres de tijolos e a praça diante do edifício onde acontece a entrega do Nobel da Paz. Fotografia: P. Hughes, via Wikimedia Commons, sob licença CC BY 4.0.
