Produção de café: por que Brasil e Vietnã lideram?

Brasil e Vietnã ocupam as primeiras posições na produção de café, mas chegaram a essa escala por trajetórias diferentes. O Brasil reúne grandes regiões produtoras de arábica e canéfora.

No Vietnã, a produção está fortemente concentrada em robusta, principalmente nos planaltos centrais.

O clima ajuda a explicar onde os cafeeiros encontram condições de cultivo. Para compreender a liderança, porém, é necessário acrescentar área agrícola, produtividade, trabalho, pesquisa e políticas que estimularam a expansão.

A comparação revela duas formas de organizar territórios para abastecer mercados. Também mostra por que um total nacional não descreve todas as propriedades, nem permite concluir qual país produz o melhor café.

O que significa liderar a produção de café?

No painel público do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, a série 2025/26 apresenta os seguintes volumes:

PaísProdução em 2025/26
Brasil63 milhões de sacas de 60 kg
Vietnã31,7 milhões de sacas de 60 kg
Fonte: USDA Foreign Agricultural Service, painel da commodity café, consultado em outubro de 2026. Valores da série 2025/26, sujeitos a revisão.

A tabela mede produção agrícola. Não representa o volume exportado, o consumo interno ou o faturamento dos produtores.

Também é necessário conferir o período. Anos comerciais podem começar em meses diferentes conforme o país, e estimativas de instituições nacionais podem adotar recortes e métodos próprios.

Uma relação simples orienta a leitura: o volume colhido depende da área em produção e do rendimento obtido nela. Produzir mais pode envolver ampliar lavouras, aumentar a produtividade ou combinar os dois movimentos.

Os números mostram a escala. A explicação aparece quando observamos como ela foi construída.

No Brasil, a expansão acumulou regiões e infraestrutura

A liderança brasileira possui uma trajetória longa. Documentos apresentados pelo Arquivo Nacional mostram a expansão do cultivo no Rio de Janeiro e em áreas de Minas Gerais e São Paulo, ligada ao crescimento da demanda externa.

Essa expansão envolveu concentração de terras e exploração do trabalho escravizado. Sua interpretação não pode ser reduzida à descoberta de solos favoráveis.

A produção também exigiu caminhos para transportar as sacas, comerciantes e estruturas de exportação. A lavoura passou a integrar uma organização territorial mais ampla.

Ao longo do tempo, a cafeicultura incorporou outras regiões e formas de manejo. A Embrapa relaciona o melhoramento genético ao desenvolvimento de materiais com características de interesse agrícola e à expansão do cultivo em diferentes ambientes.

A escala atual resulta dessa acumulação histórica e de mudanças posteriores. Não corresponde à permanência de um único modelo de fazenda desde o século XIX.

Arábica e canéfora ampliam a diversidade brasileira

O Brasil produz tanto Coffea arabica quanto Coffea canephora. Conilon e robusta são nomes associados a grupos de materiais de canéfora, não duas espécies adicionais.

A distribuição dos cultivos permite reconhecer diferenças ambientais dentro do país. O levantamento da Conab descreve, no Espírito Santo, maior concentração de conilon no norte, em áreas geralmente mais quentes e de relevo mais baixo, enquanto o arábica tem presença importante nas áreas elevadas do sul.

Minas Gerais, por sua vez, possui grande participação na produção de arábica. Outras regiões acrescentam ambientes e sistemas próprios à cafeicultura nacional.

Essa diversidade impede resumir o mapa a “arábica nas montanhas” e “robusta nas baixadas”. Altitude precisa ser interpretada junto de latitude, temperatura e condições locais.

O país consegue reunir volumes de diferentes regiões produtoras, mas isso não torna suas lavouras equivalentes em calendário, manejo ou custos.

O relevo interfere no trabalho das máquinas

A mecanização participa da organização produtiva, mas sua aplicação depende do terreno e da lavoura.

Um estudo publicado em 2023, com participação da Embrapa, mapeou a aptidão de áreas cafeeiras do Espírito Santo a partir da declividade.

A pesquisa identificou diferenças importantes entre os terrenos e classificou parte expressiva da área analisada como não recomendada para atividades mecanizadas segundo os critérios utilizados.

O resultado mostra por que não se deve imaginar toda a cafeicultura brasileira como uma extensão plana percorrida por colhedoras.

Em terrenos favoráveis, máquinas podem participar de operações que exigem outra organização nas encostas. Espaçamento, condução das plantas e características dos equipamentos também precisam ser considerados.

A irrigação acrescenta possibilidades de manejo. No Cerrado, a Embrapa desenvolveu procedimentos de estresse hídrico controlado para uniformizar a florada de cafeeiros irrigados.

Isso revela uma intervenção sobre o calendário da planta. A tecnologia atua em condições específicas; não constitui uma receita automaticamente aplicável a qualquer propriedade.

Fileiras de cafeeiros acompanham um terreno ondulado, com árvores e morros ao fundo. Ilustrando artigo Produção de café: por que Brasil e Vietnã lideram?
Cafezal próximo a Santo Antônio do Amparo, em Minas Gerais. As fileiras de plantio acompanham as formas do terreno. Crédito Knase, via Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 DE

No Vietnã, reformas econômicas aceleraram a expansão

A presença do café no Vietnã antecede sua transformação em grande produtor. Um relatório do Banco Mundial, elaborado em 2004, situa o início dos plantios no século XIX e descreve uma expansão especialmente intensa a partir dos anos 1990.

As reformas conhecidas como Doi Moi, iniciadas em 1986, alteraram as condições de participação das famílias e das empresas na agricultura. Mudanças no acesso aos mercados, aos insumos e ao crédito participaram desse processo.

O relatório também descreve apoio à expansão cafeeira e o uso intensivo de recursos para elevar os rendimentos.

A liderança, portanto, não surgiu apenas porque existia um ambiente adequado nos planaltos centrais. Decisões econômicas estimularam produtores a estabelecer lavouras e ampliar a oferta.

Esse documento ajuda a explicar a formação do setor. Por ser histórico, não deve fornecer sozinho uma descrição das regras ou das condições de trabalho atuais.

Robusta concentra a produção vietnamita

A composição da safra diferencia o Vietnã do Brasil.

No relatório de maio de 2026, o escritório do USDA no país estimou, para 2025/26, 30,5 milhões de sacas de robusta e 1,2 milhão de arábica. A predominância é clara, mas não significa ausência de outras produções.

Os planaltos centrais formam um núcleo importante dessa atividade. Estudos em Lam Dong mostram como a obtenção de rendimentos elevados se relaciona ao uso de água, fertilizantes e trabalho.

Uma pesquisa publicada em 2021 examinou a eficiência da irrigação de robusta nessa província. O problema estudado não era simplesmente conseguir mais água, mas utilizá-la melhor em um contexto de demandas concorrentes.

Essa distinção importa: produtividade elevada não equivale automaticamente a uso eficiente de todos os recursos.

A água também estabelece limites à liderança

Nos dois países, irrigar não elimina a dependência das condições ambientais. A disponibilidade de água, o custo da energia e as decisões de manejo continuam participando do resultado.

O estudo de Lam Dong discute desperdícios associados à irrigação excessiva. O relatório vietnamita do USDA de 2026 também alerta para pressões sobre águas subterrâneas e custos de produção.

No Brasil, os levantamentos da Conab mostram que os volumes variam conforme condições meteorológicas, área em produção e bienalidade, especialmente no arábica.

A bienalidade corresponde à alternância de potencial produtivo entre ciclos. Seu efeito se combina com o clima e com o manejo; não permite prever a colheita por uma regra isolada.

Assim, ocupar uma posição elevada no ranking não significa produzir sempre a mesma quantidade. Renovação de lavouras, condições hídricas e investimentos precisam continuar sustentando a atividade.

Duas lideranças, vários territórios produtores

O Brasil combina uma extensa história de expansão, diversidade regional e produção relevante de duas espécies. O Vietnã consolidou uma grande oferta de robusta por meio de transformações econômicas e intensificação agrícola.

Em ambos, a escala depende de trabalho e de conexões que levam o café para além da propriedade. O ambiente oferece possibilidades e impõe limites; decisões humanas organizam o aproveitamento dessas condições.

Essa leitura também ajuda a interpretar a origem informada numa embalagem. País, região, variedade e processamento descrevem aspectos diferentes. O conceito de terroir permite relacionar condições do lugar e práticas de produção, sem transformar a procedência em garantia de qualidade.

Brasil e Vietnã lideram em volume por combinações históricas e produtivas distintas. Aproximar o mapa permite reconhecer o que o ranking reúne e as diferenças que ele deixa de mostrar.

Fontes e Referências

Para explorar mais

Imagem destacada

Plantação de café nas proximidades de Da Lat, na província de Lam Dong, Vietnã, em registro de 2015. A paisagem representa um local específico, não todas as lavouras do país. Fotografia: P. Hughes, Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.