Uma barreira de areia pode separar águas costeiras do oceano, enquanto a mudança de um canal fluvial pode deixar uma curva do rio parcialmente isolada.
A construção de uma barragem também cria uma superfície de água, mas por uma intervenção que modifica o escoamento.
Esses processos ajudam a compreender por que lagos, lagoas e reservatórios do Brasil apresentam formas semelhantes, embora tenham origens e dinâmicas diferentes.
Para reconhecer essas diferenças, é preciso observar o relevo que recebe a água, suas fontes de alimentação e as condições de saída.
O nome registrado no mapa oferece uma referência, mas a formação do ambiente exige investigar suas relações com a paisagem.
Neste artigo
Reservatórios do Brasil: O que distingue cada corpo d’água?
Lagos e lagoas são corpos d’água cuja denominação nem sempre segue uma divisão uniforme por tamanho ou profundidade.
Os nomes geográficos também incorporam usos históricos e regionais.
A Lagoa dos Patos, por exemplo, conserva essa denominação apesar de sua grande extensão e de integrar um sistema costeiro conectado ao oceano.
O termo laguna costuma designar um corpo d’água costeiro separado do mar por uma barreira, com comunicação por canais permanentes ou temporários.
Essa condição ajuda a explicar o funcionamento da Lagoa dos Patos, mas não permite concluir que toda lagoa brasileira tenha ligação com o mar.
Neste artigo, reservatório designa o corpo d’água criado pelo represamento artificial de um curso fluvial.
Itaipu e Sobradinho pertencem a esse grupo. Embora também sejam chamados de lagos, sua origem está associada à construção e à operação de barragens.
Lagoa dos Patos: a formação de uma barreira costeira
A planície costeira do Rio Grande do Sul foi transformada por sucessivas oscilações do nível do mar.
Ao longo desses ciclos, os sedimentos foram retrabalhados e organizados em sistemas de barreiras arenosas e ambientes lagunares.
A configuração atual da Lagoa dos Patos resulta dessa evolução, que envolveu diferentes etapas de isolamento, inundação e preenchimento sedimentar.
A faixa de terra entre a lagoa e o Atlântico, portanto, integra uma estrutura construída pela dinâmica costeira.
Atrás dela, a água ocupa uma extensa área que recebe contribuições continentais, incluindo as do sistema Jacuí-Guaíba e do rio Camaquã.
A comunicação permanente com o oceano ocorre pelo canal de Rio Grande.
Essa combinação distingue a lagoa de uma depressão completamente fechada.
Seu funcionamento depende tanto da água que chega pelos rios quanto das trocas pela saída oceânica.
O ambiente atual conserva, sob a superfície, registros de antigos canais e fases anteriores da paisagem.
Jurubatiba: águas superficiais e subterrâneas na costa
A formação costeira também pode produzir conjuntos de lagoas com características diferentes dentro de uma mesma região.
No Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, no Rio de Janeiro, existem lagoas alongadas em direção ao interior e outras dispostas paralelamente à praia.
Essa diferença acompanha suas fontes de alimentação e sua história de formação.
Algumas recebem água de córregos cujas vazões não mantêm uma abertura para o mar.
Outras estão relacionadas ao afloramento do lençol freático, quando a água subterrânea alcança a superfície nas partes baixas do terreno.
A Lagoa Encantada exemplifica essa alimentação subterrânea, enquanto a Lagoa do Amarra-Boi pode desaparecer durante estiagens intensas, quando o nível freático fica muito baixo.
A permanência da água, assim, depende de condições que ultrapassam o contorno visível da lagoa.
As barras arenosas também interferem nessas relações. Sua abertura modifica a comunicação com o oceano, razão pela qual romper artificialmente uma barra pode alterar o ambiente que se pretende utilizar.
Como um rio pode deixar um lago em seu caminho
Nas áreas fluviais, a formação de lagos pode acompanhar a transformação do próprio canal.
Um rio sinuoso modifica suas margens por erosão e deposição de sedimentos. Quando encontra um caminho mais curto entre dois trechos próximos, pode abandonar parte de uma curva, deixando um corpo d’água com formato arqueado.
Esse processo ocorre nas planícies de inundação, onde antigos canais permanecem próximos ao curso atual.
O isolamento pode ser incompleto: durante as cheias, a água volta a alcançar áreas que pareciam separadas na estação de nível baixo.
No Médio Rio Purus, uma avaliação do Serviço Geológico do Brasil identificou, junto à comunidade de Várzea Grande, uma tendência de rompimento de um laço de meandro.
O caso mostra que a formação de um lago pode começar como uma mudança ainda em andamento, com consequências para a ligação de uma comunidade com o rio principal.
Lagos de várzea: uma paisagem que acompanha as cheias
Os lagos amazônicos não se resumem aos meandros abandonados. Muitos integram sistemas de várzea com canais, depressões e áreas sazonalmente inundadas, cuja comunicação se modifica ao longo do ano.
Na várzea do Lago Grande de Curuai, no Pará, diversos lagos estão conectados entre si e ao rio Amazonas por pequenos canais. A variação do nível da água acompanha a dinâmica do rio, alterando a extensão inundada e as trocas dentro do sistema.
Essas conexões transportam sedimentos que participam da transformação do fundo dos lagos.
Um estudo sobre Curuai identificou predominância de materiais finos, especialmente silte e argila, provenientes do Amazonas e de terrenos próximos.
A paisagem lacustre, portanto, continua sendo modificada depois de sua formação.
Uma imagem obtida durante a vazante registra apenas uma etapa desse funcionamento.
Para compreender o sistema, é necessário considerar também a paisagem inundada e os caminhos pelos quais a água circula.
Itaipu e Sobradinho: quando uma barragem modifica o rio
Nos reservatórios, a acumulação começa com uma intervenção no escoamento.
A barragem eleva o nível da água a montante e inunda partes do vale, fazendo com que o novo contorno acompanhe o relevo anteriormente ocupado pelo rio e seus afluentes.
Em Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, o fechamento das comportas do canal de desvio iniciou a formação do reservatório em outubro de 1982.
O enchimento submergiu as Sete Quedas e áreas ocupadas nas margens do Paraná.
A transformação envolveu tanto a paisagem fluvial quanto os lugares onde viviam milhares de pessoas.
Depois do enchimento, o reservatório continua dependente da água que chega e das decisões sobre sua liberação.
Sobradinho, na Bahia, exemplifica essa relação no rio São Francisco. Sua operação considera o armazenamento e as necessidades do sistema hídrico, que reúne outros reservatórios e diferentes usos da água.
A superfície observada em determinado momento resulta, assim, da combinação entre condições hidrológicas e operação. Sua extensão não deve ser tratada como uma medida invariável.
A formação explica como interpretar a paisagem
Uma lagoa costeira exige observar barreiras e conexões oceânicas; um lago de várzea exige acompanhar a relação com as cheias; um reservatório exige reconhecer a barragem e o vale inundado.
Esses elementos oferecem pistas sobre a origem e o funcionamento de cada ambiente.
A observação também precisa alcançar a bacia hidrográfica, pois a água e os materiais transportados até o corpo d’água podem vir de áreas distantes de suas margens.
Compreender essa continuidade permite relacionar a paisagem visível aos processos que a formaram e que ainda a modificam.
Para explorar mais
- Lagoas do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, no ICMBio: apresentação dos ambientes e de suas fontes de alimentação. Consulta gratuita, em português.
- Estudo sobre a evolução geológica da Lagoa dos Patos: pesquisa sobre antigos vales e registros sedimentares do sistema lagunar. Acesso aberto, em inglês.
- Origem e dinâmica dos sedimentos na várzea do Lago Grande de Curuai: pesquisa sobre as conexões entre os lagos, o Amazonas e os materiais transportados pela água. Acesso aberto, em português.
Imagem destacada
Lagoa dos Patos e região do Guaíba vistas da Estação Espacial Internacional em novembro de 2019. Imagem ISS061-E-048125, cortesia da Earth Science and Remote Sensing Unit, NASA Johnson Space Center, em domínio público, conforme as condições de uso da NASA.
