Os templos de Bagan se distribuem pela planície, entre árvores, caminhos e áreas cultivadas. Alguns dominam o horizonte; outros aparecem como construções menores junto ao terreno.
A quantidade chama atenção, mas também provoca uma pergunta: o que sustentou tantas obras religiosas no mesmo lugar?
Bagan, no centro de Mianmar, reuniu uma capital política, uma tradição de doações budistas e conexões pelo rio Ayeyarwady, também conhecido como Irrawaddy. A concentração de monumentos nasceu dessas relações, desenvolvidas durante gerações.
Para compreender essa paisagem, é preciso olhar além das torres. Água, trabalho e circulação também participaram de sua construção.
Neste artigo
Uma capital junto ao rio Ayeyarwady
O principal período de florescimento de Bagan ocorreu entre os séculos XI e XIII, quando a cidade foi capital de um império regional.
Sua posição junto a uma curva do Ayeyarwady importa para essa história. A UNESCO relaciona a expansão de sua influência ao controle do transporte fluvial.
O rio ajuda a responder à parte territorial da pergunta. Bagan não era um conjunto de santuários separado das relações políticas e econômicas: fazia parte de uma organização capaz de exercer influência sobre uma área maior.
Entretanto, estar perto de um grande rio não produz automaticamente uma paisagem de templos. A localização precisa ser entendida em conjunto com as instituições que concentravam recursos e com as práticas que orientavam seu emprego.
Construir era uma forma de adquirir mérito religioso
A tradição budista de realizar ações para adquirir mérito ajuda a explicar a multiplicação dos monumentos. Nesse contexto, apoiar a comunidade religiosa e financiar construções constituíam atos de valor espiritual.
A UNESCO associa essa prática ao rápido crescimento das obras em Bagan, com um auge no século XIII.
Cada construção acrescentava uma presença duradoura à paisagem. A repetição dessas iniciativas, ao longo do tempo, produziu uma concentração que não corresponde a uma única campanha de obras.
Uma pesquisa acadêmica dedicada aos monumentos e povoamentos de Bagan examina justamente como a mobilização de trabalho, recursos e capital para essas construções participou da organização do espaço.
Assim, a devoção também tinha uma dimensão material: precisava ser convertida em atividades, deslocamentos e estruturas.
O rei também se apresentava como doador
O patrocínio religioso se relacionava ao exercício do poder. Na interpretação da UNESCO, o rei atuava como principal doador, e a redistribuição vinculada ao budismo participava do controle político.
Essa relação evita separar completamente crença e governo. As obras podiam expressar compromisso religioso enquanto tornavam visível a capacidade de mobilização de seus patrocinadores.
Na leitura geográfica proposta aqui, os monumentos permitem observar essa passagem dos recursos para o território.
Uma doação adquiria forma construída e permanecia como referência espacial depois do momento em que havia sido realizada.
Isso não significa atribuir a todos os templos a mesma origem ou a mesma intenção. Para identificar doadores e circunstâncias particulares, é necessário consultar inscrições, estudos arqueológicos e a documentação de cada monumento.
A água também organizava a paisagem dos templos
Bagan fica na zona seca central de Mianmar. A proximidade do Ayeyarwady não eliminava a necessidade de armazenar e conduzir água na planície.
Um estudo de Elizabeth Moore, U San Win e Pyiet Phyo Kyaw mostra a importância de reservatórios, cursos sazonais e pequenas intervenções ajustadas ao terreno.
O templo Sulamani oferece um exemplo concreto. Associado por inscrição a uma construção de 1183, seu conjunto apresenta entradas e saídas de água sob os muros, relacionadas a reservatórios próximos.
Essas estruturas permitem olhar para o templo como parte de um espaço que precisava funcionar durante diferentes condições de chuva.
O estudo também questiona a ideia de que o fosso da cidade recebesse historicamente sua água diretamente do grande rio. A pesquisa identifica conexões com o escoamento da própria planície.
Ler essa paisagem exige, portanto, acompanhar tanto as torres quanto os caminhos da água.

Por que os monumentos parecem ocupar um campo inteiro?
A imagem de Bagan pode sugerir construções isoladas sobre uma grande superfície disponível. A pesquisa sobre sua organização urbana apresenta outra relação: uma pequena área murada integrava um espaço mais amplo, com aldeias, monumentos e produção agrícola.
Os intervalos entre os edifícios também pertencem à história do lugar. Eles não devem ser tratados automaticamente como vazios ou como prova de abandono.
A interpretação muda quando se considera a convivência entre funções. Cultivar, morar, circular e praticar a religião participavam da organização dessa paisagem.
A fotografia ajuda a reconhecer a distribuição das construções, mas não revela sozinha como cada parcela era utilizada em determinado século.
O que vemos hoje reúne permanências e intervenções
O Getty Conservation Institute apresenta Bagan como um patrimônio em que os monumentos permanecem ligados a práticas religiosas e agrícolas.
Ao mesmo tempo, terremotos, inundações e intervenções de conservação modificaram suas condições materiais. A aparência atual não corresponde a um instante intacto do período medieval.
Esse cuidado também vale para os números. O registro da UNESCO menciona 3.595 monumentos, incluindo templos, estupas e outras estruturas. Esse inventário não deve ser apresentado como uma contagem exclusiva de templos nem como o total de tudo o que já foi construído.
Bagan concentra tantos monumentos porque a condição de capital e as conexões fluviais se combinaram com práticas de doação e patrocínio religioso durante séculos.
A paisagem resultante conserva essas relações, mas também o trabalho necessário para sustentar a vida na planície e as transformações ocorridas depois.
Fontes e referências
- UNESCO, Bagan: posição geográfica, período histórico, prática de mérito e caracterização do patrimônio.
- Getty Conservation Institute, Bagan Conservation Project: relações entre monumentos, práticas vivas e conservação.
- Moore, Elizabeth; U San Win; Pyiet Phyo Kyaw. Water Management in the Urban Cultural Heritage of Myanmar, 2016: pesquisa sobre água, povoamento e o conjunto de Sulamani.
- Merit-Making and Monuments, repositório da Trent University: resumo da pesquisa sobre construção religiosa e padrões de povoamento.
Para explorar mais
- Bagan no Centro do Patrimônio Mundial: consulte a descrição institucional e os critérios de reconhecimento. Acesso gratuito, em inglês.
- Projeto de conservação do Getty: conheça as frentes de pesquisa sobre estruturas, decoração e documentação. Acesso gratuito, em inglês.
Imagem Destacada
Monumentos de diferentes dimensões distribuídos pela planície de Bagan, em Mianmar. Fotografia de 2013, anterior às transformações e aos danos ocorridos nos anos seguintes. Fotografia: KX Studio / Wikimedia Commons. Arquivo original e informações. Licença CC BY 2.0.
