O mapa da produção de cacau e o mapa das fábricas de chocolate respondem a perguntas diferentes.
Um mostra onde as amêndoas são produzidas; o outro acompanha sua transformação industrial. Entre a árvore e a barra, existem etapas que podem atravessar fronteiras.
Costa do Marfim, Gana e Equador lideram as estimativas de produção apresentadas no relatório anual 2024/25 da Organização Internacional do Cacau, a ICCO. Nigéria, Camarões, Indonésia, Brasil e Peru completam os oito países destacados nesta comparação.
A lista ajuda a localizar a oferta agrícola. Para entender o que existe por trás dela, precisamos observar também os sistemas de cultivo, o trabalho após a colheita e a circulação da matéria-prima.
Neste artigo
Os oito maiores produtores na referência utilizada
A tabela abaixo organiza os volumes informados na seção sobre o mercado global do relatório anual ICCO 2024/25. São estimativas de cacau em grão, expressas em toneladas.
| Posição nesta referência | País | Produção estimada para 2024/25 |
|---|---|---|
| 1 | Costa do Marfim | 1.681.000 t |
| 2 | Gana | 600.000 t |
| 3 | Equador | 570.000 t |
| 4 | Nigéria | 330.000 t |
| 5 | Camarões | 310.000 t |
| 6 | Indonésia | 200.000 t |
| 7 | Brasil | 190.000 t |
| 8 | Peru | 165.000 t |
Fonte e recorte: relatório anual ICCO 2024/25, seção “The Global Cocoa Market in 2024/2025”. Valores sujeitos a revisão. A tabela não representa um resultado definitivo de 2026.
A diferença entre os volumes chama atenção: nessa referência, a produção estimada da Costa do Marfim supera a soma de Gana e Equador. Isso evidencia a concentração da oferta em uma origem importante, sem explicar, por si só, as condições de cada propriedade.
No boletim de agosto de 2026, a ICCO revisou a produção mundial de 2024/25 para 4,733 milhões de toneladas. O comunicado público não apresenta uma tabela completa por país; por isso, esse total posterior não foi combinado com os números anteriores para calcular participações.
Por que outro ranking pode apresentar números diferentes?
O primeiro passo é conferir o que está sendo medido. Produção agrícola, exportação de amêndoas, moagem e fabricação de chocolate são indicadores distintos.
O período também importa. Um ano civil vai de janeiro a dezembro, enquanto uma referência de safra pode atravessar dois anos do calendário. “2024” e “2024/25” não são automaticamente equivalentes.
Outra diferença está na versão da informação. Uma previsão pode ser revista quando chegam novos registros de colheita, perdas e comercialização. Assim, duas publicações da mesma instituição podem apresentar valores diferentes para o mesmo período.
Para comparar países, mantenha fonte, produto, unidade e edição compatíveis. Substituir apenas o valor brasileiro por uma estatística nacional mais recente, por exemplo, criaria uma tabela com critérios diferentes dentro da mesma classificação.
A pergunta útil é: esses números permitem a comparação que estou tentando fazer?
O cacau tem origem americana; a liderança está na África
O cacaueiro está associado às regiões tropicais das Américas. A expansão comercial levou seu cultivo a outras partes do mundo, incluindo territórios africanos e asiáticos. A liderança atual da África Ocidental foi construída historicamente.
Esse deslocamento ajuda a explicar por que origem botânica e liderança produtiva aparecem em lugares diferentes. A formação das regiões produtoras envolveu circulação de plantas, demanda por chocolate, relações coloniais e organização comercial.
Na tabela, Costa do Marfim, Gana e Nigéria ficam na África Ocidental; Camarões, na África Central. Equador, Brasil e Peru representam a América do Sul, enquanto a Indonésia pertence ao Sudeste Asiático.
Esses conjuntos localizam a produção, mas não descrevem uma paisagem uniforme. Dentro de um mesmo país, as propriedades podem ter diferentes tamanhos, combinações de espécies e formas de manejo.
Água, sombra e solo ajudam a explicar as lavouras
O ambiente natural do cacaueiro está associado ao estrato inferior das florestas tropicais. Temperatura, disponibilidade de água e condições do solo influenciam seu desenvolvimento.
A relação com a água exige equilíbrio. A planta é sensível à deficiência hídrica, mas o excesso precisa encontrar drenagem. A distribuição das chuvas ao longo do ano também interfere no cultivo.
O sombreamento é outra parte do manejo, especialmente importante no desenvolvimento inicial. Entretanto, as lavouras comerciais apresentam diferentes configurações, ajustadas às condições e aos objetivos de produção.
Em uma visita, observe o que existe acima dos cacaueiros. As árvores mais altas fazem parte da organização produtiva? Produzem frutos, madeira ou outros recursos? Foram mantidas ou plantadas? Essas perguntas ajudam a reconhecer decisões que uma fotografia apenas das vagens não mostra.
Uma posição no ranking reúne sistemas diferentes
Um guia elaborado para a ICCO compara sistemas de produção em diferentes países. Entre os exemplos estão pequenas propriedades com cultivos associados e plantações com manejo mais intensivo. A produtividade varia conforme genética, solos, idade das plantas, clima, manejo, pragas e doenças.
Por isso, volume nacional e rendimento por hectare precisam ser separados. Um país pode produzir mais por cultivar uma área maior. Para comparar produtividade, é necessário acrescentar informações sobre área colhida e rendimento.
A renda do agricultor exige outra leitura: preço recebido, custos, trabalho e receitas de outras atividades também participam do resultado.
A tabela funciona como ponto de partida para investigar essas diferenças. Ela ganha significado quando conectada à escala da propriedade e às condições de produção.
O trabalho que começa depois de abrir o fruto
Após a abertura dos frutos, as sementes são retiradas com a polpa que as envolve. Na fermentação, microrganismos transformam componentes dessa polpa, produzindo calor e desencadeando mudanças nas amêndoas. Essas transformações participam do desenvolvimento das características que serão trabalhadas posteriormente na fabricação do chocolate.
Depois vem a secagem. Ela reduz a umidade e precisa ser conduzida com cuidado: velocidade excessiva ou insuficiente pode comprometer o lote.
Cocho de fermentação e espaço de secagem, portanto, são lugares decisivos para entender a qualidade. Durante uma visita, pergunte como o produtor acompanha essas etapas e protege as amêndoas da chuva.
A origem geográfica oferece contexto, mas não substitui o trabalho de pós-colheita. Uma região reconhecida também pode produzir lotes com características muito diferentes.
Produzir amêndoas, processar e fabricar chocolate
A cadeia pode ser acompanhada em três momentos:
- Produção agrícola e pós-colheita: cultivo, colheita, retirada das sementes, fermentação e secagem.
- Processamento: transformação das amêndoas em massa, manteiga, pó e outros produtos de cacau.
- Fabricação do chocolate: combinação de ingredientes e etapas industriais conforme a receita.
Massa ou licor de cacau é um produto obtido das amêndoas, utilizado na elaboração do chocolate. Nesse uso, “licor” não significa uma bebida alcoólica.
Um país pode cultivar cacau e importar matéria-prima ou derivados para sua indústria. O Brasil participa dessa circulação, como documenta o relatório do serviço agrícola do USDA sobre a cadeia brasileira.
Para interpretar uma embalagem, diferencie o lugar de fabricação do chocolate da origem das amêndoas. Quando ambos aparecem, é possível acompanhar uma parte maior do percurso.
No Brasil, a paisagem também revela o manejo
Pará e Bahia são referências importantes da cacauicultura brasileira. No sul da Bahia, a cabruca associa o cultivo de cacau a árvores remanescentes da Mata Atlântica. Publicações da Ceplac estudam a estrutura e o manejo desse sistema.
Na Amazônia, existem sistemas agroflorestais que combinam cacaueiros com outras espécies. Também há lavouras com maior exposição ao sol. Essas configurações exigem análises próprias de manejo e desempenho.
Ao comparar propriedades, procure identificar as espécies presentes e a história de uso da área. A paisagem agrícola informa sobre escolhas de cultivo, desde que sua aparência seja acompanhada de explicações e registros.
Volume, sabor e condições de trabalho
Cacau fino ou de aroma é uma classificação ligada ao perfil sensorial e à interação entre genética, ambiente, manejo e pós-colheita. O tamanho da produção nacional não determina essa característica.
As condições de trabalho também precisam de evidências próprias. O relatório de 2024 do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos documenta trabalho infantil perigoso na produção de cacau na Costa do Marfim, incluindo uso de ferramentas cortantes e transporte de cargas.
Esses registros não descrevem todas as propriedades do país, mas mostram por que a rastreabilidade importa. Para conhecer um produto, procure origem, produtor ou cooperativa e informações verificáveis sobre suas condições de produção.
Para explorar mais
- Relatório anual ICCO 2024/25: compare as seções de produção e moagem para perceber como a geografia muda entre as etapas da cadeia. PDF em inglês.
- Guia global de sistemas de cultivo: explore fotografias e exemplos de propriedades para comparar sombreamento, cultivos associados e manejo. PDF em inglês.
- Colheita, fermentação e secagem, na ICCO: acompanhe as transformações que ocorrem antes da fabricação do chocolate. Conteúdo em inglês.
- Boletins técnicos da Ceplac: selecione publicações sobre cabruca, pós-colheita ou doenças e confira o período e a região estudados.
