História do vinho: o que objetos e paisagens revelam

Uma vasilha de cerâmica, um recipiente para misturar bebida e uma encosta dividida em terraços parecem objetos de histórias diferentes.

Na história do vinho, eles se conectam: mostram maneiras de produzir, servir e cultivar que deixaram marcas muito além da taça.

Há uma descoberta especialmente interessante nessa trajetória. O vinho pode desaparecer de um recipiente, mas compostos absorvidos pela cerâmica permanecem por milhares de anos.

Um vinhedo pode ser replantado, enquanto seus muros e caminhos conservam decisões anteriores. Para conhecer essa história, vale acompanhar o que cada vestígio permite descobrir.

Da Geórgia à Serra Gaúcha, esses registros ajudam a interpretar lugares e a formular perguntas melhores durante uma visita.

Onde começa a história do vinho?

Em 2017, uma pesquisa apresentou evidências de vinho de uva em recipientes dos sítios de Gadachrili Gora e Shulaveris Gora, na atual Geórgia. Os contextos mais antigos estudados foram datados de aproximadamente 6000 a 5800 a.C.

A descoberta dependeu da combinação de análises químicas, vestígios vegetais, datação e contexto arqueológico. Entre os compostos identificados estava o ácido tartárico, associado às uvas e ao vinho. A cerâmica, capaz de absorver substâncias, preservou pistas de um conteúdo que havia desaparecido.

Esses resultados recuaram a cronologia conhecida em relação aos recipientes de Hajji Firuz Tepe, no atual Irã, datados de aproximadamente 5400 a 5000 a.C.

Isso não identifica uma pessoa que inventou o vinho nem o primeiro episódio de produção. Identifica evidências que sobreviveram, foram encontradas e puderam ser estudadas. Novas escavações podem modificar essa cronologia.

Em um museu, portanto, a pergunta “como sabemos o que havia aqui?” pode ser tão reveladora quanto a idade apresentada na etiqueta.

Areni-1: quando os vestígios mostram o trabalho

A caverna de Areni-1, na Armênia, apresenta outro tipo de descoberta. Pesquisadores encontraram uma instalação de vinificação com cerca de 6.100 anos, reunindo uma estrutura para prensagem, um recipiente de coleta ou fermentação, restos de uvas e utensílios.

Nesse caso, as peças permitem reconstruir etapas de uma atividade. O interesse está na relação entre os elementos: onde as uvas eram processadas, para onde o líquido seguia e quais objetos participavam do uso da bebida.

Por isso, os achados georgianos e armênios respondem a perguntas diferentes. Resíduos em recipientes ajudam a identificar vinho mais antigo; uma instalação preservada revela a organização da produção.

Essa distinção também serve para visitas atuais. Ao encontrar uma prensa histórica, observe os equipamentos associados e procure informações sobre sua procedência. Uma peça isolada conta menos sobre o trabalho do que um conjunto documentado.

O recipiente também organizava a convivência

Na Grécia antiga, o krater era utilizado para misturar vinho e água. Ele fazia parte dos equipamentos do simpósio, encontro que podia reunir bebida, música, negócios e discussão. O modo de servir integrava a organização social da reunião.

Um exemplar atribuído ao pintor Lydos, datado de cerca de 550 a.C. e preservado no Metropolitan Museum, permite observar essa relação entre função e imagem. Sua decoração apresenta personagens da mitologia ligados a Dioniso e ao retorno de Hefesto ao Olimpo.

A peça oferece duas leituras simultâneas. Sua forma informa sobre o preparo e o serviço da bebida; as figuras apresentam histórias reconhecíveis para quem participava daquele universo cultural.

Ao consultar um acervo, comece pela função do objeto. Depois examine a decoração. Essa sequência ajuda a perceber como um utensílio cotidiano podia reunir técnica, convenções sociais e narrativa.

Na Borgonha, os limites dos vinhedos contam história

A palavra francesa climat ganha um sentido específico na Borgonha: designa uma parcela de vinhedo precisamente delimitada, cuja identidade combina condições naturais e uma história de cultivo.

A UNESCO reconhece esse conjunto como uma paisagem cultural. Muros, caminhos, cercas e outros limites materializam diferenças desenvolvidas ao longo do tempo. Mosteiros, produtores, autoridades e centros urbanos participaram dessa organização.

Dijon e Beaune fazem parte dessa história por suas funções políticas, comerciais e institucionais. A paisagem vinícola envolve, assim, uma rede que conecta parcelas agrícolas, povoações e cidades.

Para o visitante, isso oferece uma mudança de escala. Em vez de observar apenas uma grande extensão de videiras, vale procurar onde uma parcela termina e outra começa. O que parece uma divisão discreta no terreno pode corresponder a um nome, uma classificação e uma trajetória própria.

A identidade regional foi construída por observação, trabalho e regras, em diálogo com as características do lugar.

No Douro, uma crise deixou marcas nas encostas

Os terraços do Alto Douro, em Portugal, permitem reconhecer transformações na maneira de cultivar. A UNESCO descreve os antigos socalcos como faixas estreitas e irregulares, sustentadas por muros de pedra, nas quais cabiam poucas linhas de videiras.

Após a crise provocada pela filoxera, a reconstrução dos vinhedos, no fim do século XIX e início do XX, incluiu terraços mais largos e regulares. Essa reorganização alterou a aparência das encostas.

A paisagem registra, portanto, uma resposta a um problema agrícola. Muros e plataformas também revelam investimento, manutenção e escolhas sobre a disposição das plantas.

Durante uma visita, compare a largura dos terraços e a presença de estruturas de contenção. Essas diferenças oferecem perguntas para conversar com produtores e guias. A data de cada trecho, porém, exige documentação local: a aparência, sozinha, não resolve sua história.

Champagne: aperfeiçoar exigiu uma cadeia de soluções

Dom Pierre Pérignon participou do aperfeiçoamento dos vinhos de Champagne, especialmente na combinação de vinhos de diferentes origens. A produção deliberada de espumantes se consolidou por mudanças acumuladas, envolvendo técnicas de elaboração, garrafas e sistemas de fechamento.

A história fica mais interessante quando acompanhamos os problemas enfrentados. Conservar a efervescência, reduzir perdas e administrar os sedimentos exigia soluções que funcionassem em conjunto.

No século XIX, outros desafios mobilizaram conhecimentos distintos. Pasteur estudou alterações do vinho associadas a microrganismos e desenvolveu procedimentos de conservação.

Já a filoxera atacava a videira. Uma resposta decisiva foi a enxertia de variedades europeias sobre porta-enxertos de origem americana resistentes ao inseto. A parte responsável pelas raízes e aquela que produz as uvas podiam, assim, ter origens diferentes.

Na visita a um vinhedo, perguntar sobre o porta-enxerto revela uma dimensão da planta que quase nunca aparece nas fotografias.

No Brasil, cultivar também significou adaptar

Um histórico da Embrapa registra a introdução da videira no Brasil em 1532, com Martim Afonso de Souza, na capitania de São Vicente. Esse marco antecede em séculos a formação de uma indústria vinícola organizada.

No Rio Grande do Sul, a imigração italiana impulsionou a vitivinicultura a partir de 1875. A produção regional, entretanto, precisou responder às condições de cultivo encontradas. Variedades de origem americana, como a Isabel, tiveram participação importante nessa trajetória.

A formação dos vinhedos envolveu conhecimentos trazidos pelos imigrantes e adaptações feitas no território. Em uma visita à Serra Gaúcha, pergunte quais variedades a família cultivava, quais permanecem e o que mudou na produção.

Essas respostas podem conectar a história de uma propriedade aos processos mais amplos da região.

Qvevri: uma tradição transmitida entre pessoas

Na Geórgia, os qvevri são recipientes de cerâmica utilizados na elaboração e no armazenamento do vinho. A tradição inclui conhecimentos compartilhados por famílias, vizinhos e amigos, com participação comunitária na colheita e na produção.

Sua importância está tanto no recipiente quanto nas relações que permitem transmitir o saber. Reconhecer essa prática viva não exige imaginar que todos os procedimentos atuais sejam idênticos aos empregados há oito mil anos.

Em regiões vinícolas, uma boa visita acompanha essas relações: quem cultiva, quem transforma, quais ferramentas utiliza e como o lugar foi organizado para sustentar o trabalho.

Para explorar mais

Imagem destacada: “The Douro Valley”, de mat’s eye, via Wikimedia Commons, sob licença CC BY 2.0.

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