A Espanha tem a maior área de videiras do mundo, mas a Itália produz mais vinho.
A diferença mostra por que contar hectares não basta para compreender a produção de vinho: é preciso saber para onde vão as uvas, quanto se colhe e o que acontece em cada safra.
Uma área cultivada pode abastecer vinícolas, fornecer uvas para consumo fresco ou produzir passas.
Mesmo entre vinhedos destinados à vinificação, a quantidade obtida varia conforme as condições do ano e as escolhas de produção.
Por isso, o ranking dos maiores produtores ganha sentido quando é comparado com o uso da terra. Ele mostra o volume elaborado em determinado período, enquanto a extensão das videiras descreve outra dimensão da atividade.
Neste artigo
Os dez maiores produtores de vinho
A tabela apresenta os maiores produtores em 2025, segundo os dados preliminares publicados pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) em maio de 2026.
| Posição | País | Produção em milhões de hectolitros |
|---|---|---|
| 1 | Itália | 44,4 |
| 2 | França | 36,1 |
| 3 | Espanha | 28,7 |
| 4 | Estados Unidos | 20,0 |
| 5 | Austrália | 11,3 |
| 6 | Argentina | 10,8 |
| 7 | África do Sul | 10,2 |
| 8 | Chile | 8,4 |
| 9 | Alemanha | 7,6 |
| 10 | Portugal | 6,0 |
Fonte: OIV, State of the World Wine Sector in 2025, tabela 2. Os volumes excluem sucos e mostos. Um hectolitro corresponde a 100 litros.
A classificação responde a uma pergunta específica: quem produziu mais vinho naquele ano? Ela não mede a qualidade das garrafas, a importância cultural da bebida ou o valor das exportações.
Hectares de videiras não são hectares destinados apenas ao vinho
Nas estatísticas da OIV, a área de videiras inclui plantas destinadas à produção de uvas para vinho, consumo fresco e secagem. Também entram no total as videiras jovens que ainda não começaram a produzir.
Isso significa que dois países com áreas semelhantes podem organizar o cultivo de maneiras diferentes. Um pode destinar uma parcela maior da colheita à vinificação; outro pode atender principalmente ao mercado de uvas de mesa.
O código de práticas da OIV distingue esses produtos pela finalidade. Uvas para vinho são destinadas à vinificação, enquanto uvas de mesa são produzidas para consumo fresco. As passas seguem outro caminho, com a desidratação dos frutos.
O mapa das videiras reúne, portanto, atividades agrícolas que compartilham a planta, mas não necessariamente o produto final.
Espanha e Itália: mais área, menos vinho
Em 2025, a OIV estimou 919 mil hectares de videiras na Espanha e 726 mil na Itália. Apesar da área menor, a produção italiana de vinho superou a espanhola.
Essa comparação demonstra que a extensão cultivada não determina a posição no ranking. Para explicar a diferença, seria necessário examinar a parcela destinada à vinificação, a área efetivamente produtiva e o rendimento da safra.
Dividir o volume nacional de vinho pela área total de videiras não resolve essas questões. O cálculo mistura terrenos com finalidades diferentes e pode incluir plantas ainda sem colheita.
Seu resultado seria uma relação entre dois totais nacionais, sem representar necessariamente o rendimento dos vinhedos produtores de vinho.
A China evidencia a diferença entre os rankings
A China ocupava a terceira posição mundial em área de videiras em 2025, com 733 mil hectares. Na produção de vinho, estava em 18º lugar, com 2,2 milhões de hectolitros.
O contraste ajuda a perceber o risco de tratar toda área de videiras como capacidade de produção vinícola.
No relatório da OIV sobre 2024, a China aparece como a maior produtora de uvas frescas. Essa categoria reúne diferentes usos da fruta. Liderar a colheita de uvas, portanto, responde a uma pergunta diferente de liderar a elaboração de vinho.
Antes de interpretar uma posição, é necessário identificar o produto contabilizado: uvas, vinho, suco ou passas. Os nomes podem aparecer próximos em uma tabela, mas representam etapas e destinos distintos.
O rendimento também depende de regras de produção
Mesmo quando a finalidade é produzir vinho, cada hectare não entrega uma quantidade fixa.
Rioja, na Espanha, oferece um exemplo documentado. Em sua apresentação sobre controle dos vinhedos, o conselho regulador informa limites de produção por hectare diferentes para variedades tintas e brancas. Também descreve regras de poda, densidade de plantio e registro das parcelas.
Esses limites mostram que a produção não depende apenas do que a planta consegue fornecer. Existem condições estabelecidas para que as uvas e os vinhos sejam admitidos em determinada denominação.
Um limite autorizado, porém, não é uma previsão de colheita. O vinhedo pode produzir menos, e as condições aplicáveis precisam ser verificadas para a campanha considerada.
As variedades de uvas para vinho ajudam a compreender outra parte dessa organização: a matéria-prima cultivada e sua relação com regiões e denominações. Conhecer esses vínculos complementa a leitura dos volumes nacionais.
A safra muda antes que o mapa dos vinhedos mude
A área plantada descreve uma estrutura territorial. A produção anual registra o resultado de uma colheita e de sua elaboração.
O relatório de primeiras estimativas da OIV para 2025 documentou condições contrastantes: seca e calor em algumas regiões, excesso de chuva, tempestades e maior pressão de doenças em outras. Esses acontecimentos afetaram os rendimentos de maneiras diferentes, inclusive dentro de um mesmo país.
Assim, uma queda de produção não significa necessariamente redução equivalente da área cultivada. O terreno pode continuar ocupado por videiras enquanto a safra entrega menos uvas.
Também é necessário separar clima e condições meteorológicas do ano. O clima ajuda a caracterizar uma região; o tempo durante o ciclo de cultivo participa do resultado daquela safra. Uma reputação construída ao longo de décadas não elimina os efeitos de um ano desfavorável.
Como comparar a produção sem misturar medidas
Uma comparação consistente começa com quatro perguntas:
- Qual produto está sendo medido? Uvas colhidas e vinho elaborado não são a mesma informação.
- O que a área inclui? Verifique se são todas as videiras ou apenas aquelas destinadas à vinificação, e se entram plantas ainda não produtivas.
- Qual é o período? Compare dados referentes ao mesmo ano e observe se são estimativas, números provisórios ou consolidados.
- Qual conclusão o indicador permite? Volume informa escala de produção. Para discutir qualidade, origem ou comércio, são necessárias outras evidências.
Mais vinhedos podem ampliar a base de uma atividade, mas não garantem mais vinho. Entre o hectare plantado e o volume elaborado estão o destino das uvas, a entrada das plantas em produção, o rendimento, as regras e as condições da safra.
É essa sequência que explica por que o mapa das videiras e o ranking do vinho não coincidem.
Fontes e referências
- OIV – State of the World Wine Sector in 2025. Maio de 2026. Áreas de videiras e produção de vinho, especialmente tabelas 1 e 2.
- OIV – Wine, Table Grapes & Dried Grapes in 2024. Setembro de 2025. Definição da área contabilizada e distinção dos produtos.
- OIV – Definições de uvas. Código Internacional de Práticas Enológicas.
- OIV – World Wine Production Outlook 2025. Novembro de 2025. Primeiras estimativas e contexto das condições meteorológicas.
- Consejo Regulador DOCa Rioja – Controle dos vinhedos. Apresentação de novembro de 2023 sobre registro, poda e limites de produção.
Para explorar mais
- Estatísticas da OIV: consulte a base de dados e os relatórios sobre produção, consumo e comércio.
- Cadastro Vitícola Nacional da Embrapa: conheça a distribuição dos polos brasileiros e observe o período de referência das informações.
Imagem Destacada
Vinhedos de Tempranillo sem folhas no inverno, na propriedade da Bodega Viña Sastre, em La Horra, Espanha. A fotografia apresenta uma área de cultivo, sem indicar seu rendimento. Fotografia: Pravdaverita, via Wikimedia Commons. Licença CC BY 3.0.
