Águas termais no Sul: de onde vem o calor?

A água quente de um balneário pode chegar por um poço ou por uma surgência natural. Essa diferença explica como ela alcança a superfície, mas ainda deixa uma pergunta: onde foi aquecida?

Nas águas termais no Sul do Brasil, a resposta começa pelo calor interno da Terra e pela circulação subterrânea.

A profundidade, as rochas e os caminhos disponíveis para a água ajudam a explicar o aquecimento.

Isso não significa que todos os destinos estejam ligados ao mesmo aquífero ou tenham captações semelhantes.

Também é necessário separar a temperatura da água na saída do subsolo daquela encontrada pelo visitante na piscina.

O calor vem do interior da Terra

O interior terrestre conserva e produz calor. Uma de suas fontes é o decaimento de elementos radioativos naturalmente presentes nas rochas, como urânio, tório e potássio.

A temperatura geralmente aumenta com a profundidade. Essa variação é chamada de gradiente geotérmico.

Quando a água circula por regiões profundas, pode receber calor das rochas ao redor. Depois, condições geológicas e hidráulicas permitem que ela seja captada por poços ou retorne à superfície por caminhos naturais.

Não existe, porém, uma relação universal em que cada metro de profundidade produza o mesmo aumento de temperatura. O gradiente varia, assim como a circulação da água e as condições das rochas.

Por isso, a profundidade ajuda a compreender o aquecimento, mas não basta para prever a temperatura de uma fonte.

É preciso haver um vulcão?

Não. Sistemas termais podem estar associados a magma, mas também existem águas aquecidas pela circulação profunda em áreas sem esse mecanismo.

O ponto principal é distinguir a origem do calor das condições que permitem à água alcançá-lo e transportá-lo.

Um aquífero é uma formação geológica capaz de armazenar e transmitir água subterrânea. A água pode ocupar poros entre grãos ou circular por fraturas das rochas.

Esses caminhos importam porque permitem a circulação e, em certos locais, a comunicação entre unidades geológicas diferentes. Uma fratura não produz necessariamente calor: pode oferecer passagem para água que foi aquecida em outro trecho do sistema.

No oeste catarinense, a profundidade ajuda a explicar

O relatório do Mapa Hidrogeológico de Santa Catarina relaciona a ocorrência de águas termais no bloco oeste à posição profunda do Sistema Aquífero Guarani e ao efeito do gradiente geotérmico.

A explicação combina duas condições: a presença de água subterrânea e sua circulação em um ambiente mais quente, situado em profundidade.

O mesmo relatório descreve captações termais em poços relativamente rasos na unidade Serra Geral, entre São Carlos e Águas de Chapecó.

Isso mostra por que a profundidade de um poço não deve ser confundida automaticamente com a profundidade de todo o percurso da água. A captação pode interceptar água que circulou por outras partes do sistema antes de chegar àquele ponto.

No Alto Rio Uruguai, os aquíferos podem se comunicar

Um estudo de Freitas, Roisenberg e Cunha, publicado em 2011, investigou fontes e poços termais na região do Alto Rio Uruguai, entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Os autores descrevem conexões entre o aquífero fraturado da Formação Serra Geral e o Sistema Aquífero Guarani, situado abaixo das rochas vulcânicas. Falhas e fraturas favorecem a comunicação e a mistura de águas.

O levantamento distingue surgências naturais em fraturas de poços tubulares perfurados perto dessas ocorrências. Nos pontos estudados, foram registradas temperaturas entre 30 °C e 38 °C.

Esses resultados pertencem à área e aos pontos investigados. Não devem ser usados como temperatura atual de todos os balneários, nem como explicação única para as águas termais de toda a região Sul.

O estudo também mostra que chamar uma água de “termal” não descreve sozinho sua composição ou seu caminho subterrâneo.

Piratuba: perfuração, água encontrada e novo poço

Piratuba oferece um exemplo de como diferentes números podem se referir a etapas distintas.

Segundo a Prefeitura, em 1964 uma perfuração da Petrobras para procurar petróleo atingiu 2.271,30 metros. A água termal foi encontrada a 674 metros, com temperatura informada de 38,6 °C.

A profundidade final da pesquisa e o nível em que a água foi encontrada, portanto, são informações diferentes.

Em 2023, o município anunciou outro poço, com aproximadamente 740 metros. A notícia relacionava a nova captação à necessidade de manter o abastecimento de água termal das piscinas, especialmente no inverno.

Comparar esses registros exige identificar qual poço está sendo descrito, a data da informação e o que foi medido. Misturar os números em uma única ficha pode produzir uma descrição incorreta.

Fonte, poço e piscina são pontos diferentes

Uma surgência natural é um local onde a água subterrânea alcança a superfície. Um poço é uma obra que intercepta essa água. Uma piscina é uma instalação que a recebe para uso.

A origem geológica pode ser natural mesmo quando a captação ocorre por uma perfuração.

InformaçãoO que ela descreve
Temperatura na surgência ou na saída do poçoCondição da água no ponto de captação
Profundidade do poçoExtensão da perfuração
Intervalo de entrada da águaTrecho pelo qual a água chega ao poço
VazãoVolume captado ou descarregado por unidade de tempo
Temperatura na piscinaCondição da água na instalação de banho

Entre a captação e a piscina, a água percorre instalações e troca calor com o ambiente. A alimentação e a renovação também participam das condições de uso.

Por isso, uma temperatura anunciada para a fonte não garante exatamente o mesmo valor em todas as piscinas e em qualquer momento.

Temperatura não é comprovação de efeito terapêutico

Explicar o aquecimento da água é uma questão geológica. Demonstrar um benefício para a saúde exige outro tipo de evidência.

Temperatura, composição química e indicação terapêutica são informações distintas. Uma análise que identifica sais dissolvidos não demonstra, por si só, que o banho trata determinada doença.

O termalismo envolve usos das águas minerais e termais em práticas de banho, lazer e, em determinados contextos, tratamentos supervisionados. A tradição de uso pode fazer parte da história de uma estância, mas não substitui a avaliação das alegações de saúde.

O que perguntar sobre uma água termal?

Para compreender um destino, procure saber de onde vem a água, como ela é captada e onde sua temperatura foi medida.

Dados de poços, estudos hidrogeológicos e análises identificadas oferecem uma base mais precisa que expressões como “água curativa” ou “fonte regenerativa”.

O calor interno da Terra explica o ponto de partida. A trajetória da água, as conexões entre rochas e aquíferos e as condições de captação explicam por que esse calor chega à superfície de maneiras diferentes.

Fontes e referências

Para explorar mais

Imagem Destacada

Piscina das Termas de Piratuba, em Santa Catarina, exemplo do uso turístico de água subterrânea termal discutido no artigo. Fotografia: Ricardo Eliezer de Souza e Silva Maas, via Wikimedia Commons. Licença CC BY 3.0.

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