Vilarejos suíços: como o relevo organiza a ocupação?

Uma localidade acima do fundo de um vale pode parecer isolada quando observada à distância. Outra, cercada por montanhas, pode ter vivido durante séculos do transporte de mercadorias.

Nos Alpes suíços, a posição das construções precisa ser entendida junto dos caminhos que as conectam.

O relevo participa dessa organização ao oferecer superfícies para construir e cultivar, impor desníveis e concentrar possibilidades de passagem.

Mas não determina sozinho o desenvolvimento de um povoado. Técnicas de transporte, atividades econômicas e decisões sobre infraestrutura modificam as relações com o terreno.

Mürren, Bergün e Splügen permitem acompanhar essas diferenças. A comparação reúne uma localidade num patamar de encosta, um núcleo ligado à rota do Albula e um povoado associado a duas travessias alpinas.

São situações distintas, escolhidas para compreender a ocupação, sem pretensão de representar todos os vilarejos suíços.

Mürren: ocupar um patamar acima do vale

Mürren, no cantão de Berna, ocupa um terraço de montanha na encosta do vale de Lauterbrunnen, a aproximadamente 1.650 metros de altitude.

Nesse contexto, terraço designa um patamar do relevo, não necessariamente uma superfície construída para a agricultura.

A posição permite reconhecer uma diferença importante: ocupar uma área montanhosa não significa construir apenas no fundo dos vales. Superfícies nas encostas também podem abrigar núcleos de povoamento.

O Dicionário Histórico da Suíça indica que a área provavelmente funcionava como pastagem alpina antes da instalação de imigrantes provenientes do Lötschental, depois de 1300.

Essa hipótese relaciona a ocupação permanente a um espaço anteriormente utilizado de outra maneira.

Séculos mais tarde, as atividades turísticas acrescentaram novas funções. Antes da construção da ligação ferroviária, em 1891, os visitantes chegavam por caminhos percorridos com animais de carga.

A dificuldade de acesso não impediu o desenvolvimento de hospedagens. Ela condicionava a forma de circulação e o trabalho necessário para manter essas conexões.

Uma vila sem carros também depende de infraestrutura

Hoje, uma das ligações de Mürren com o fundo do vale combina o teleférico entre Lauterbrunnen e Grütschalp com a ferrovia de Grütschalp até o povoado.

O percurso separa duas tarefas: vencer um grande desnível e seguir pela encosta. O teleférico supera cerca de 686 metros de diferença de altitude; o trecho ferroviário completa a conexão.

Essa infraestrutura transporta também cargas. Em Grütschalp, materiais são transferidos do teleférico para a ferrovia.

O funcionamento da localidade envolve, portanto, abastecimento e circulação de bens, além do deslocamento de moradores e visitantes.

A condição de vila sem carros não equivale à ausência de conexões. Ela corresponde a uma organização dos transportes em que diferentes meios assumem funções específicas.

Na paisagem de Mürren, casas e montanhas precisam ser observadas junto de estações, cabos e trilhos. Esses elementos ajudam a explicar como a ocupação permanece conectada apesar do desnível.

Bergün: habitação, trabalho e passagem no vale do Albula

Bergün, também chamada Bravuogn em romanche, fica no cantão dos Grisões, no caminho do passo do Albula.

Sua história reúne criação de animais, agricultura, mineração e circulação. Entre os séculos XVI e XIX, a extração e o processamento de minérios também ofereciam possibilidades de trabalho.

O núcleo principal não esgota a ocupação desse território. Latsch e Stugl/Stuls, localidades próximas, situam-se em patamares acima do rio Albula.

A distribuição dos povoados mostra que a vida no vale se organizou em diferentes posições do relevo.

As conexões também mudaram. A abertura de uma passagem no obstáculo rochoso conhecido como Bergünerstein, em 1696, e a construção da estrada no século XIX ampliaram a importância do trânsito pelo Albula.

No começo do século XX, a ferrovia favoreceu o turismo. Em Preda, mais acima na rota, a ligação ferroviária contribuiu para que a ocupação se tornasse permanente durante todo o ano.

O terreno ajuda a localizar os núcleos; a história dos transportes explica parte das mudanças em suas funções.

Construções de Bergün entre áreas abertas, com encostas florestadas e montanhas ao fundo no outono. Ilustrativo ao artigo Vilarejos suíços: como o relevo organiza a ocupação?
Bergün entre áreas abertas e encostas florestadas, em outubro de 2008. Crédito JoachimKohler-HB / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

A ferrovia transforma a maneira de atravessar o relevo

Entre Bergün e Preda, a diferença de altitude aparece no próprio traçado ferroviário. A Ferrovia Rética utiliza túneis helicoidais, além de pontes e outras estruturas, para organizar a subida.

Um túnel helicoidal permite que a linha faça uma volta dentro da montanha, ganhando altitude ao longo do percurso. O caminho se alonga para distribuir a subida, em vez de seguir diretamente pela encosta.

Assim, a distância entre duas localidades não corresponde apenas à separação horizontal vista num mapa. O desnível e as possibilidades técnicas de vencê-lo também participam da conexão.

O reconhecimento da UNESCO abrange a Ferrovia Rética nas paisagens do Albula e da Bernina. O patrimônio reúne infraestrutura e contexto territorial, destacando os efeitos duradouros dessas ligações sobre a vida nas montanhas.

Bergün permite observar essa relação: a ferrovia faz parte da paisagem e da transformação econômica do vale.

Splügen: quando uma passagem sustenta o povoado

Splügen, nos Grisões, ocupa uma posição ligada à bifurcação das rotas dos passos de Splügen e San Bernardino. Um passo de montanha é uma passagem pela cadeia montanhosa que permite conectar seus lados.

É importante distinguir o povoado de Splügen do passo que leva seu nome. O núcleo fica na aproximação da travessia, não no ponto mais alto dela.

Historicamente, o transporte de mercadorias teve grande importância. Comunidades locais organizavam o deslocamento com animais de carga, dividindo o percurso em trechos e transferindo os produtos entre transportadores.

Parte desses trabalhadores combinava agricultura e transporte. A economia do povoado dependia tanto dos espaços de produção quanto da posição nas rotas.

A melhoria do caminho pela garganta de Viamala, ao norte, ajudou a ampliar o movimento pelo passo.

Isso mostra que a utilidade de uma travessia depende do percurso inteiro: uma passagem na montanha pode perder importância se outro trecho da rota continuar difícil de transpor.

As montanhas permanecem, mas os fluxos mudam

Entre 1818 e 1823, a construção de uma estrada para carroças e carruagens aumentou a capacidade de circulação pelo passo de Splügen.

Posteriormente, outras conexões ferroviárias atravessaram os Alpes. A abertura da ferrovia do Gotardo, em 1882, contribuiu para o forte declínio do trânsito comercial pelas rotas que atendiam Splügen.

O relevo continuava no mesmo lugar, mas a posição econômica do povoado mudou. A vantagem de servir a uma passagem dependia das alternativas disponíveis e dos trajetos escolhidos para transportar mercadorias.

A mudança atingiu atividades locais e contribuiu para a emigração. Mais tarde, a abertura do túnel rodoviário de San Bernardino, em 1967, participou de outra reorganização, associada ao desenvolvimento turístico.

Uma paisagem de construções antigas pode, portanto, guardar a história de conexões que já não cumprem a mesma função.

O que comparar nos vilarejos suíços

Mürren mostra uma ocupação em encosta conectada por transportes que vencem o desnível. Bergün reúne diferentes posições de povoamento e transformações associadas à estrada e à ferrovia. Splügen evidencia a importância econômica de uma passagem e os efeitos da mudança das rotas.

Para compreender essas diferenças, vale observar onde estão as casas, como os caminhos se aproximam e quais atividades dependem dessas ligações. A altitude, sozinha, não explica o grau de conexão de uma localidade.

Essa leitura da paisagem aproxima construções, terreno e circulação. Uma encosta ocupada não é apenas natureza ao redor de casas: é um espaço utilizado, conectado e transformado ao longo do tempo.

A perda de uma antiga função de passagem também aparece em Tsumago, no Japão rural. A comparação ajuda a investigar como novas estradas e ferrovias alteram a importância dos lugares, mesmo quando parte de suas construções permanece.

Fontes e referências

Para explorar mais

Imagem Destacada

Construções de Mürren na encosta, com cabos de transporte e montanhas ao fundo, em agosto de 2010. Fotografia de Cristo Vlahos, sob licença CC BY-SA 3.0.

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