Diante do Nahuel Huapi, em Bariloche, e do Lácar, em San Martín de los Andes, aparecem elementos semelhantes: água entre montanhas, encostas arborizadas e cidades próximas das margens.
Há, porém, uma diferença que a vista não revela. As águas do primeiro chegam ao Atlântico; as do segundo seguem para o Pacífico.
Os dois lagos estão na Argentina. Portanto, estar do mesmo lado da fronteira internacional não significa pertencer à mesma vertente hidrográfica.
Para entender esse contraste entre lagos da Patagônia, é preciso acompanhar os rios de saída e observar a organização do relevo.
As antigas geleiras também fazem parte da explicação, pois erodiram terrenos e deixaram depósitos que ajudaram a configurar essa paisagem.
O recorte deste artigo se concentra em Nahuel Huapi e Lácar, sem estender automaticamente suas características a todos os lagos patagônicos.
Neste artigo
O destino da água depende da bacia
Uma bacia hidrográfica reúne a área que contribui com água para uma saída comum. Ela pode conter rios, córregos e lagos conectados.
Entre bacias vizinhas, o divisor de águas separa os caminhos do escoamento superficial. Muitas vezes acompanha elevações, mas não precisa coincidir com uma sequência de picos destacados na paisagem.
Num lago com saída superficial, a água escoa pelo trecho em que o nível alcança a passagem disponível para continuar descendo pelo terreno. A posição dessa saída participa da definição de seu caminho até o mar.
Por isso, medir apenas a distância em linha reta até cada oceano não resolve a questão. A água acompanha uma rede de conexões condicionada pelo relevo.
A paisagem lacustre precisa ser observada como parte desse sistema. O lago recebe água de uma área maior e pode transferi-la para outros corpos d’água.
Nahuel Huapi: a saída está no Limay
O Nahuel Huapi se conecta ao Atlântico por uma sequência de rios.
No setor oriental do lago nasce o Limay. Mais adiante, ele se encontra com o rio Neuquén, formando o rio Negro, que segue até o oceano Atlântico.
Assim, Bariloche e Villa La Angostura, situadas em diferentes setores do Nahuel Huapi, compartilham essa ligação hidrográfica.
O inventário da sub-bacia Limay Sur identifica o lago como de origem glacial e registra sua alimentação por cursos d’água das cabeceiras. O rio de saída conecta essa paisagem montanhosa a um sistema que atravessa outras áreas da Patagônia.
Uma margem pode parecer isolada entre bosques e montanhas, mas a água continua participando de relações muito mais extensas.
O relatório oficial da bacia também destaca o armazenamento proporcionado pelos lagos, que retêm volumes e os devolvem gradualmente aos rios. A passagem pela superfície lacustre interfere no funcionamento da drenagem.

Lácar: uma ligação com o Pacífico
O Lácar pertence a outro sistema.
O Inventário Nacional de Glaciares situa o lago na bacia do Hua Hum, de vertente pacífica. Seus afluentes descem dos relevos que cercam a área e alimentam o conjunto lacustre.
A conexão envolve o lago Nonthué, de cujo setor noroeste parte o rio Hua Hum. Esse rio atravessa a fronteira e continua em território chileno.
A Direção-Geral de Águas do Chile inclui Lácar e Hua Hum na caracterização da bacia compartilhada do rio Valdivia.
O percurso completo contém outros lagos e rios. Por isso, o esquema abaixo resume os sistemas principais, sem enumerar cada ligação intermediária.
| Lago ou conjunto | Caminho resumido da drenagem | Destino |
|---|---|---|
| Nahuel Huapi | Limay, confluência com o Neuquén e rio Negro | Atlântico |
| Lácar-Nonthué | Hua Hum e sistema hidrográfico do Valdivia | Pacífico |
O contraste mostra que a fronteira entre países e a separação entre bacias respondem a critérios diferentes. Uma conexão hidrográfica pode atravessar territórios nacionais.
Como as geleiras modificaram o terreno?
Uma geleira é uma massa de gelo em movimento. Ao se deslocar, pode desgastar rochas, transportar fragmentos e depositar sedimentos.
O National Park Service descreve dois mecanismos de erosão: a abrasão, quando materiais carregados na base do gelo raspam o substrato, e o arrancamento de blocos de rocha.
Esses processos podem aprofundar e remodelar vales. Quando o gelo recua, as depressões podem receber água.
A deposição também importa. Acumulações de materiais transportados pelo gelo, chamadas morenas, podem funcionar como barreiras e participar da formação de lagos.
A herança glacial, portanto, envolve tanto a remoção quanto o acúmulo de materiais. Para compreender uma bacia, interessa investigar a depressão ocupada pela água e as passagens e obstáculos ao redor.
Isso ajuda a explicar por que o relevo atual não pode ser reduzido a uma cordilheira contínua, funcionando como uma parede uniforme entre os oceanos.
Os vestígios precisam ser estudados em cada bacia
Na região do Lácar, um estudo ambiental disponibilizado pelo governo argentino descreve rochas modificadas pelas glaciações e a presença de depósitos glaciais e de outros sedimentos recentes.
Na bacia Nahuel Huapi-Limay, uma pesquisa publicada em 2025 reuniu mapeamento geomorfológico e datação de blocos associados a morenas para investigar antigos avanços do gelo.
São evidências de naturezas diferentes, empregadas para reconstruir processos que não podem ser observados diretamente na paisagem atual.
O ponto essencial é distinguir três perguntas: como se formou a depressão, por onde a água escoa hoje e se essa saída mudou em algum momento.
Comprovar a origem glacial de um lago não responde automaticamente à terceira questão. Uma mudança antiga de drenagem exige evidências específicas, como antigas margens, canais abandonados, depósitos e relações de altitude.
Nos dois casos comparados, o destino atual está documentado. Uma cronologia detalhada de reorganização das saídas exigiria investigação própria.
Chuva e degelo alimentam os sistemas
O volume recebido por uma bacia e o caminho de sua drenagem são aspectos relacionados, mas distintos.
Na bacia do Limay, o relatório hidrológico descreve a entrada de umidade proveniente do Pacífico e sua precipitação sobre a região andina. Os lagos armazenam parte da água recebida pela rede.
Isso significa que uma área alimentada por precipitações associadas à circulação atmosférica do Pacífico pode enviar suas águas superficiais ao Atlântico.
O caminho da umidade no ar não precisa repetir o caminho posterior da água sobre o terreno.
A chuva, a neve e o degelo participam da alimentação dos cursos d’água. Para descobrir o oceano de destino, porém, é necessário seguir suas conexões e saídas.
O que procurar num mapa?
A comparação fica mais clara quando o mapa mostra relevo e hidrografia, além de estradas e fronteiras.
Comece localizando o lago. Depois identifique os cursos que chegam a ele e procure o rio que sai. Acompanhe esse rio até suas confluências, ampliando a área observada sempre que necessário.
Em seguida, compare o percurso com as elevações. A pergunta é por onde existe continuidade para o escoamento, e não qual oceano parece mais perto.
Também vale conferir a escala. Um mapa turístico pode destacar cidades e mirantes, mas omitir trechos indispensáveis para compreender a bacia.
Diante da paisagem, montanhas altas e margens escarpadas chamam atenção. A saída da água pode estar num setor menos destacado da vista.
É por isso que duas fotografias semelhantes não bastam para classificar os lagos. Nahuel Huapi e Lácar compartilham uma paisagem andina marcada pelo gelo, mas se conectam a redes hidrográficas diferentes.
O destino de suas águas aparece quando deixamos a margem e acompanhamos o sistema inteiro.
Fontes e Referências
- Governo argentino. Caracterização da bacia do rio Limay.
- Inventário Nacional de Glaciares. Informe da sub-bacia do rio Limay Sur, 2018.
- Inventário Nacional de Glaciares. Informe da bacia do rio Hua Hum, 2018.
- Dirección General de Aguas do Chile. Recursos hídricos compartilhados: bacia do Valdivia, Lácar e Hua Hum. Registro no repositório do Ministério de Obras Públicas.
- U.S. Geological Survey. Watersheds and Drainage Basins.
- National Park Service. How Glaciers Change the Landscape.
- Governo argentino. Estudo ambiental da área de Catritre, no entorno do Lácar.
- Mizerit e colaboradores. Pleistocene glacial geomorphology and chronology of the Nahuel Huapi-Limay and Traful catchments, northern Patagonia. Geomorphology, 2025.
- Turismo de Villa La Angostura. Rota histórica e nascentes do Limay.
Para explorar mais
- Mapa da bacia do Hua Hum, no portal do governo argentino: localize a rede de drenagem e o limite da bacia.
- Atlas de Glaciares da Argentina: consulte as publicações organizadas no contexto das bacias hidrográficas.
- Como as geleiras transformam a paisagem, no National Park Service: veja explicações ilustradas sobre erosão e deposição.
Imagem destacada
Margem do lago Lácar, em San Martín de los Andes, em fotografia de 2007. O lago integra uma bacia que escoa para o Pacífico; sua saída não aparece neste enquadramento. Foto: Albasmalko, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
