Arquitetura de Bariloche: quem construiu a imagem alpina?

Os telhados inclinados, as fachadas de pedra e madeira e os edifícios que lembram vilarejos dos Alpes são parte da imagem mais conhecida de Bariloche.

Diante das montanhas e do lago Nahuel Huapi, essa arquitetura parece uma consequência natural da paisagem. Mas sua presença tem uma história mais complexa.

A cidade argentina recebeu imigrantes europeus que trouxeram técnicas construtivas e referências culturais. Décadas depois, porém, o poder público passou a orientar deliberadamente sua aparência, buscando transformá-la em um destino turístico de montanha.

A arquitetura alpina de Bariloche nasceu desse encontro entre ambiente natural, imigração e planejamento territorial.

Para compreender quem construiu essa imagem, é preciso observar não apenas os edifícios, mas também as decisões que determinaram quais construções ganhariam destaque.

Antes da imagem alpina, havia outra Bariloche

A história de Bariloche não começa com os chalés de inspiração europeia.

A região do Nahuel Huapi já era habitada por povos indígenas antes da formação da cidade argentina. Durante o século XIX, a expansão territorial do Estado e as políticas de colonização modificaram profundamente as formas de ocupação.

No final daquele século, o povoamento ligado à economia agrícola, à criação de animais, à exploração de madeira e ao comércio com o Chile ganhou importância.

Em 1895, Carlos Wiederhold, comerciante chileno de origem alemã, estabeleceu uma casa comercial na região. Em 1902, um decreto argentino formalizou a criação da povoação de San Carlos de Bariloche.

Naquele período, as construções atendiam principalmente às necessidades de moradia, armazenamento e circulação de mercadorias.

A madeira disponível nos bosques, a pedra e o conhecimento dos carpinteiros tiveram papel importante. Imigrantes centroeuropeus contribuíram com formas de construir, mas também houve influência das técnicas utilizadas no sul do Chile.

Um exemplo é a antiga sede da Oficina de Tierras y Colonias, construída em 1928. Seu sistema de estrutura leve de madeira, conhecido como balloon frame, revela referências construtivas que ultrapassavam a tradição alpina.

Essa primeira paisagem construída era mais diversificada e funcional do que a imagem turística que se tornaria dominante nas décadas seguintes.

Quando o Estado decidiu transformar a cidade

A mudança decisiva ocorreu na década de 1930.

Em 1934, foi criada a Direção de Parques Nacionais da Argentina, instituição que passou a exercer influência sobre a conservação da natureza, a infraestrutura e o desenvolvimento turístico da região.

Nesse mesmo ano, a chegada da ferrovia conectando Bariloche a Buenos Aires ampliou as possibilidades de circulação de pessoas e mercadorias.

O responsável por impulsionar grande parte da transformação foi Exequiel Bustillo, primeiro presidente da instituição.

Seu projeto não consistia apenas em construir hotéis. Envolvia criar uma cidade com aparência reconhecível, capaz de representar a paisagem andina como um destino turístico de prestígio.

As referências europeias, especialmente aquelas associadas à Suíça e ao Tirol, correspondiam à imagem que se pretendia promover.

Arquitetos contratados pela administração pública passaram a trabalhar com essa orientação. Entre eles estavam Ernesto de Estrada, Alejandro Bustillo e Miguel Ángel de Césari.

A arquitetura tornou-se, assim, um instrumento de transformação territorial.

Prédios administrativos, hotéis, escolas, igrejas, estradas e espaços públicos passaram a compor um projeto mais amplo. A intenção era produzir uma paisagem urbana coerente com a representação de uma cidade de montanha.

O Centro Cívico tornou visível essa escolha

O exemplo mais expressivo está no Centro Cívico de Bariloche.

Projetado por Ernesto de Estrada entre 1936 e 1937 e inaugurado em 17 de março de 1940, o conjunto reúne edifícios públicos distribuídos em torno de uma praça aberta na direção do lago Nahuel Huapi.

Essa disposição permite observar a relação entre a arquitetura e o cenário natural.

As construções apresentam telhados inclinados, revestimentos de pedra, elementos de madeira, galerias cobertas e arcos que conectam os diferentes setores.

O conjunto é um exemplo de arquitetura pintoresquista, tendência que valoriza composições visualmente marcantes, referências tradicionais e integração estética com o ambiente.

Embora seja frequentemente descrito como alpino, o projeto também incorpora influências da arquitetura de regiões montanhosas e florestais dos Estados Unidos.

Há um detalhe importante: os edifícios não são simplesmente grandes construções de madeira e pedra.

Sua estrutura utiliza concreto armado e alvenaria de tijolos. Parte da aparência tradicional vem dos revestimentos aplicados sobre uma solução construtiva moderna para aquele período.

Isso ajuda a compreender a diferença entre o material que sustenta uma construção e aquele que define sua aparência externa.

O Centro Cívico foi pensado para concentrar funções administrativas, culturais e institucionais. Portanto, sua arquitetura não servia apenas à contemplação.

A praça, a Prefeitura, a Biblioteca Sarmiento e o Museu da Patagônia passaram a formar um núcleo de representação pública.

O conjunto ajudou a definir como Bariloche seria reconhecida e fotografada, mas também expressou o papel crescente do Estado na organização da cidade.

Por que pedra, madeira e telhados inclinados?

Esses elementos não foram escolhidos por uma única razão.

Os bosques patagônicos ofereciam madeira, enquanto a região possuía materiais pétreos utilizados nas construções. A disponibilidade local favoreceu determinadas soluções.

O clima também tinha importância. Telhados inclinados ajudam a conduzir água e neve, embora seu desempenho dependa do projeto, da inclinação e dos materiais empregados.

Mas condições ambientais semelhantes não produzem obrigatoriamente a mesma arquitetura.

Uma cidade de montanha pode desenvolver diferentes formas de construir, dependendo dos recursos disponíveis, das técnicas conhecidas e das decisões de seus habitantes.

Em Bariloche, parte dessas escolhas foi orientada por uma intenção estética.

Os revestimentos de madeira, os telhados escuros, as pedras aparentes e as varandas contribuíram para criar uma unidade visual entre edifícios com funções diferentes.

A semelhança com os Alpes, portanto, não foi apenas resultado de adaptação ao frio. Ela também foi cultivada como uma identidade urbana.

O Hotel Llao Llao ampliou a imagem de montanha

Se o Centro Cívico consolidou a aparência institucional de Bariloche, o Hotel Llao Llao ajudou a projetá-la no turismo.

O empreendimento foi idealizado durante a gestão de Exequiel Bustillo e projetado por seu irmão, o arquiteto Alejandro Bustillo.

Sua localização, na região de Llao Llao, aproveitava a proximidade entre lagos, bosques e montanhas.

Hotel Llao Llao entre áreas arborizadas e montanhas na região de Bariloche. Ilustrando artigo Arquitetura de Bariloche: quem construiu a imagem alpina?
O Hotel Llao Llao diante do relevo andino, em Bariloche. A arquitetura de inspiração alpina participa da construção da identidade visual da cidade. Crédito davidw, via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0

O edifício não precisava apenas oferecer hospedagem. Sua posição e sua arquitetura deveriam compor uma paisagem atraente.

Inaugurado em 1938, o hotel original utilizava pedra e madeira em uma construção de grande porte.

Um incêndio destruiu grande parte do edifício em 1939. A reconstrução, concluída em 1940, incorporou concreto armado e alvenaria, preservando a linguagem arquitetônica característica do empreendimento.

Esse episódio revela um aspecto da construção da imagem alpina: a aparência tradicional podia permanecer mesmo quando as técnicas e os materiais estruturais mudavam.

O hotel também representava uma política de desenvolvimento turístico voltada inicialmente a visitantes de maior poder aquisitivo.

A escolha de sua localização e a construção dos acessos contribuíram para ampliar o crescimento urbano em direção ao oeste.

A paisagem também foi planejada pelas estradas

A construção da imagem de Bariloche não se limitou aos edifícios.

A Avenida Costanera, projetada por Ernesto de Estrada por volta de 1938, integrou a remodelação urbana promovida pela Direção de Parques Nacionais.

Seu traçado foi concebido para estabelecer uma ligação paisagística entre a cidade e os caminhos que seguiam em direção a Llao Llao.

Segundo a documentação municipal, sua abertura envolveu desapropriações de terrenos.

O projeto criou uma via que favorecia vistas para o lago e as montanhas. Ao longo do percurso, construções representativas deveriam reforçar a linguagem arquitetônica planejada para a região.

Essa relação entre edifício, estrada e paisagem é fundamental.

Não basta escolher um estilo de construção. A posição dos prédios, a orientação das vias e os pontos de observação influenciam como a cidade aparece para quem a percorre.

Bariloche foi transformada também pela organização dos caminhos a partir dos quais sua paisagem seria percebida.

Nem toda a arquitetura de Bariloche é alpina

A presença marcante do Centro Cívico e do Hotel Llao Llao pode levar à impressão de que toda a cidade seguiu um único estilo.

Não foi o que aconteceu.

A Catedral de Nuestra Señora del Nahuel Huapi, associada ao trabalho de Alejandro Bustillo e Miguel Ángel de Césari, apresenta referências neogóticas, diferentes das composições dos edifícios públicos do Centro Cívico.

Construções mais antigas conservam referências da arquitetura em madeira desenvolvida durante a colonização agrícola e comercial.

O crescimento posterior trouxe residências, edifícios comerciais, conjuntos habitacionais e soluções construtivas de outras épocas.

Essa variedade revela que a cidade continuou mudando depois da grande transformação da década de 1930.

A imagem alpina é uma parte relevante de sua paisagem, mas não representa a totalidade de Bariloche.

O que a imagem alpina deixa fora do enquadramento?

A paisagem turística costuma destacar os edifícios próximos ao lago, os hotéis e as construções de inspiração europeia.

Entretanto, a cidade também cresceu em direção às áreas mais elevadas ao sul do núcleo urbano.

Um estudo da geógrafa Brenda Matossian, publicado em 2015 na revista EURE, examinou a divisão social do espaço residencial de Bariloche e suas relações com os processos migratórios.

A pesquisadora identificou contrastes entre os setores valorizados pela atividade turística e bairros populares associados ao espaço conhecido como El Alto.

Essa organização possui dimensões econômicas, históricas e territoriais. A localização das moradias, as condições de acesso e a infraestrutura urbana não foram distribuídas de maneira uniforme.

Isso não significa que toda a margem do lago seja rica ou que todos os moradores de El Alto apresentem as mesmas condições sociais. O estudo descreve tendências espaciais e processos históricos, não uma divisão absoluta da população.

Há ainda outra dimensão da história regional que a identificação com a Europa pode obscurecer: a presença indígena e os vínculos culturais e comerciais estabelecidos com o Chile.

A arquitetura mais fotografada da cidade não permite compreender, sozinha, todas essas relações.

A expressão Suíça argentina ajuda a reconhecer uma identidade turística construída historicamente, mas não explica integralmente a formação social de Bariloche.

Uma cidade argentina com uma imagem europeia

A pergunta sobre quem construiu a imagem alpina de Bariloche não tem um único nome como resposta.

Os imigrantes e carpinteiros contribuíram com técnicas e referências. Ernesto de Estrada e Alejandro Bustillo deram forma a obras importantes. Exequiel Bustillo e a Direção de Parques Nacionais impulsionaram a política institucional que consolidou essa identidade.

A paisagem natural forneceu o cenário, mas não determinou sozinha o resultado.

A arquitetura de Bariloche mostra como uma cidade pode assumir características visuais associadas a outro continente e transformá-las em parte de sua identidade territorial.

Por trás das fachadas que lembram os Alpes, existe uma história de circulação de pessoas, escolhas políticas, trabalho, investimentos e transformação urbana.

Fontes e referências

Para explorar mais

Imagem Destacada

Conjunto arquitetônico do Centro Cívico de Bariloche, com fachadas de pedra e madeira e torre com relógio, exemplo da linguagem arquitetônica adotada durante a transformação urbana da década de 1930. Fotografia: Charliemoon ar, via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 3.0.