Na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, a faixa de areia aparece entre encostas que avançam em direção ao oceano.
Em Bombinhas, Mariscal e Canto Grande Mar de Fora dividem uma mesma extensão arenosa, embora tenham nomes diferentes.
Essas paisagens ajudam a perceber que a costa não acompanha os limites definidos nos mapas turísticos.
Os morros participam dessa organização onde suas bases rochosas encontram o mar. Podem delimitar praias, alterar a exposição às ondas e influenciar os caminhos percorridos pela areia.
Mas não trabalham sozinhos: ondas, correntes, ventos e disponibilidade de sedimentos também dão forma ao litoral.
Para compreender essa relação nas praias de Santa Catarina, vamos observar exemplos de Florianópolis e Bombinhas, além de pesquisas sobre a costa estadual.
A seleção permite explicar alguns processos, sem representar todos os tipos de praia encontrados no estado.
Neste artigo
Onde o morro encontra o mar
Uma encosta coberta de vegetação pode terminar em rochas expostas à ação das ondas. Nesse trecho, aparece o costão.
Quando uma porção do terreno se projeta sobre o mar, formando uma ponta saliente da costa, recebe o nome de promontório.
As palavras descrevem aspectos relacionados, mas diferentes. O morro é uma elevação do relevo; o costão corresponde à margem rochosa; o promontório destaca a projeção do terreno em direção à água.
Entre essas saliências, existem espaços onde sedimentos podem se acumular e formar praias.
A paisagem resulta da combinação entre uma estrutura rochosa relativamente resistente e materiais que ondas e correntes conseguem redistribuir.
O Serviço Geológico do Brasil distingue justamente os costões rochosos das planícies costeiras sedimentares.
Também destaca que mudanças do nível relativo do mar e circulação de sedimentos participam da evolução dessas áreas.
Por isso, a praia não pode ser explicada apenas como areia produzida pelo desgaste do morro ao lado. Sua formação envolve uma história mais ampla de transporte, acumulação e transformação da costa.
Por que algumas praias fazem uma curva?
Nas praias de enseada, as projeções rochosas ajudam a delimitar a faixa arenosa e interferem na chegada das ondas.
Um promontório pode deixar parte da praia menos exposta a determinadas direções de ondulação. Ao contornar obstáculos, as ondas mudam sua distribuição, e a energia que alcança a areia pode variar de um trecho para outro.
O material é deslocado por essa circulação. Com o tempo, a linha da praia assume uma forma relacionada à posição das pontas rochosas e à direção predominante das ondas.
A explicação apresentada pelo projeto MepBay, da Universidade Federal de Santa Catarina, mostra que praias de enseada podem ter uma extremidade mais curva e abrigada, enquanto outro setor apresenta traçado mais retilíneo.
Isso ajuda a entender por que duas pontas não produzem necessariamente uma meia-lua simétrica. A orientação da praia e a maneira como as ondas chegam também importam.
Abrigo, nesse contexto, descreve uma relação com a energia das ondas. Não significa proteção permanente nem permite concluir que um trecho seja seguro para banho.
O que a Lagoinha do Leste permite observar?
A vista elevada da Lagoinha do Leste torna visível a relação entre praia, encostas e terreno baixo. A faixa arenosa ocupa a abertura voltada para o oceano, enquanto os morros acompanham suas laterais e o interior da paisagem.
O cadastro municipal descreve um conjunto formado por praia, dunas, morrarias e a lagoinha, que deságua na porção norte da praia.
A diversidade aparece também na vegetação, com florestas nas encostas e ambientes de restinga próximos à areia.
Esse arranjo permite distinguir elementos que, vistos da beira da água, podem parecer um cenário único.
As encostas não cumprem a mesma função que a faixa de dunas, assim como a praia não equivale à área ocupada pela lagoa.
A paisagem também tem história de uso. O registro municipal menciona antigas roças de mandioca, ranchos de pesca e recuperação da vegetação após o declínio agrícola e a proteção da área.
Portanto, a presença de morros e vegetação não comprova ausência de ocupação humana anterior. A forma natural e as mudanças de uso precisam ser lidas em conjunto.
Mariscal e Canto Grande: dois nomes, uma faixa de areia
Em Bombinhas, a própria prefeitura informa que Mariscal divide sua faixa de areia com Canto Grande Mar de Fora.
A continuidade é importante para a leitura geográfica. A mudança de nome não representa, necessariamente, uma interrupção do sistema praial.
Nesse caso, é possível acompanhar a faixa arenosa além do limite indicado pela denominação de cada praia.

Na imagem tomada do Morro do Macaco, a relação fica mais clara: aparecem o arco de areia, a ocupação da planície e os relevos que acompanham a costa.
A fotografia permite observar a disposição desses elementos, mas não determina sozinha quanto sedimento entra ou sai da praia. Para isso, são necessárias medições e acompanhamento ao longo do tempo.
Comparar a imagem com um mapa ajuda a fazer uma pergunta mais precisa: onde existe uma divisão apenas de nome e onde uma ponta rochosa realmente modifica a configuração da costa?
Os costões impedem a passagem da areia?
Uma ponta rochosa pode dificultar ou modificar o transporte de sedimentos. Isso não significa que toda enseada funcione como um compartimento completamente fechado.
Na tese sobre promontórios e comportamento da linha de costa catarinense, José Mauricio de Camargo investigou também a transposição sedimentar, isto é, a passagem de sedimentos entre setores separados por projeções rochosas.
A pesquisa identificou 107 promontórios, classificados conforme suas características e influência na circulação.
Também acompanhou pontais arenosos em Ponta das Canas, em Florianópolis, e nas praias do Forte e da Enseada, em São Francisco do Sul.
Os resultados mostram ciclos de deposição e erosão nesses pontais. A linha de costa apresentou comportamentos diferentes entre setores e dentro deles.
O ponto central é que as rochas condicionam a circulação, mas a areia continua participando de um sistema móvel. Uma fotografia registra sua posição naquele momento, sem revelar todo o percurso do material.
A forma da praia também muda com as ressacas
Os morros podem permanecer reconhecíveis enquanto a largura da faixa de areia se altera.
Uma análise publicada por pesquisadores da Epagri explica que ondas mais energéticas podem retirar sedimentos da parte emersa e depositá-los na parte submersa da praia.
A areia fica menos visível, embora parte dela continue no sistema próximo à costa.
Outras condições podem favorecer sua redistribuição e o alargamento da faixa emersa. Essa alternância não deve ser confundida automaticamente com uma perda permanente.
O mesmo estudo destaca que ocupações sobre dunas podem bloquear fluxos de sedimentos e aumentar a vulnerabilidade de construções.
Assim, explicar a costa exige observar também o espaço disponível para suas mudanças. Uma rua ou um prédio junto à areia introduz uma relação diferente daquela encontrada em um trecho onde praia e dunas mantêm continuidade.
Como ler os morros nas praias de Santa Catarina
Uma primeira observação pode acompanhar a linha de contato entre terra e água. Onde a areia termina? A rocha forma apenas um pequeno trecho exposto ou se projeta sobre o mar? A faixa arenosa continua depois da mudança de nome?
Depois, vale comparar momentos diferentes. A posição da areia e o desenho da arrebentação podem mudar, mesmo quando as pontas rochosas permanecem como referências.
Um trabalho da UFSC analisou 90 praias de enseada catarinenses e encontrou grande variação nas medidas de abertura, recuo e comprimento.
Essa diversidade reforça a necessidade de observar cada configuração, em vez de aplicar uma forma única a todas as praias.
Os morros ajudam a desenhar os limites e a orientação de muitos trechos da costa. As ondas e os sedimentos respondem a essa estrutura, enquanto a ocupação humana acrescenta novas condições. É dessa interação que surge a paisagem vista da areia ou de um mirante.
Fontes e referências
- Litoral do estado de Santa Catarina: promontórios rochosos, comportamento da linha de costa e processo de transposição sedimentar, José Mauricio de Camargo, UFSC, 2020.
- Classificação Morfométrica das Praias de Enseada do Estado de Santa Catarina, Vitor Hugo Kuhnen de Melo, UFSC, 2021.
- Praias de enseada, projeto MepBay, UFSC.
- Geodiversidade do Brasil, Serviço Geológico do Brasil.
- Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste, Prefeitura de Florianópolis.
- Praia de Mariscal, Prefeitura de Bombinhas.
- Erosão de praias e ressacas na Ilha de Santa Catarina: causas, histórico recente e possibilidades de ação, Epagri, 2022.
Para explorar mais
- Consulte a pesquisa da UFSC sobre promontórios e circulação de sedimentos para conhecer os setores estudados e acessar a tese.
- Veja o cadastro municipal da Lagoinha do Leste, com informações sobre seus ambientes e histórico de uso.
- Leia o estudo da Epagri sobre erosão e ressacas, que relaciona dinâmica das praias e ocupação da orla.
Imagem Destacada
Na Lagoinha do Leste, a vista elevada permite observar a faixa de areia entre morros e sua relação com a lagoa e a vegetação. Foto: Zzrafz / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
