O centro de La Serena reúne construções antigas e edifícios do século XX que procuram conversar com elas.
Essa aproximação ajuda a explicar uma impressão recorrente: ruas e prédios de épocas diferentes parecem pertencer a um mesmo passado.
Parte dessa aparência foi reforçada pelo Plan Serena, programa de transformação urbana desenvolvido durante o governo de Gabriel González Videla, entre 1946 e 1952.
A cidade ganhou serviços, espaços públicos e novas construções, enquanto a arquitetura neocolonial aproximava algumas dessas obras de uma imagem histórica.
Isso não significa que o centro seja uma reprodução recente. Para entender sua paisagem, é preciso separar a idade da cidade, a data de cada edifício e o período ao qual sua aparência faz referência. Alguns exemplos do centro histórico mostram como essas camadas se encontram.
Neste artigo
Uma cidade antiga, com construções de diferentes épocas
A formação de La Serena remonta ao século XVI. Segundo o Consejo de Monumentos Nacionales do Chile, o primeiro traçado seguia uma malha de quadras regulares, conhecida como tabuleiro de xadrez.
Mas a permanência de uma organização urbana antiga não significa que todos os prédios ao redor tenham a mesma idade. Incêndios, reconstruções e mudanças econômicas modificaram a cidade.
No século XIX, a mineração do cobre e o comércio contribuíram para novas construções. Carpinteiros estrangeiros e profissionais formados na região participaram de uma arquitetura com características próprias. Depois vieram outras linguagens, incluindo o ecletismo e, por volta de 1940, o neocolonial.
Assim, chamar todo o centro de “colonial” apaga diferenças importantes. Uma casa oitocentista e uma repartição construída no século XX podem compartilhar elementos visuais sem pertencer ao mesmo momento histórico.
O que o Plan Serena queria transformar?
O Plan Serena procurava transformar a cidade natal do presidente Gabriel González Videla em um polo de desenvolvimento econômico.
Sua atuação envolveu recuperação de espaços públicos, intervenções no centro antigo e ampliação de equipamentos urbanos.
A relação de obras apresentada pela Biblioteca Nacional do Chile inclui a reconstrução dos liceus Gabriela Mistral e Gregorio Cordovez, novos edifícios para serviços públicos, uma estação ferroviária e áreas verdes.
A Intendencia estava entre as novas construções. Isso ajuda a perceber o alcance da intervenção: a paisagem histórica também passou a abrigar uma estrutura administrativa renovada.
Escolas, repartições, transportes e parques atendiam a funções diferentes, mas participavam da transformação de uma mesma cidade. A aparência arquitetônica era uma parte desse projeto.
Por que construir edifícios novos com referências antigas?
Neocolonial é o nome de uma linguagem arquitetônica que retoma e reinterpreta referências associadas ao período colonial. O termo descreve uma escolha de projeto; não comprova que um edifício tenha sido construído naquela época.
No estudo “Primer ensayo urbanístico regional, modernidad en La Serena, 1946–1952”, a pesquisadora María Teresa Fierro Page destaca uma combinação central do plano: uma intervenção orientada pela modernização adotou, por vontade expressa do presidente, o estilo neocolonial nas edificações.
A intenção modernizadora e a referência ao passado podiam, portanto, aparecer na mesma obra. Um prédio novo podia acomodar serviços públicos contemporâneos e apresentar uma fachada que evocava uma cidade mais antiga.
Essa combinação ajuda a responder à pergunta do título. A impressão de antiguidade resulta tanto de elementos preservados quanto de escolhas feitas para aproximar novas construções de uma identidade histórica.
A Prefectura mostra como aparência e estrutura podem divergir
Um exemplo concreto está na esquina das ruas Colón e Cienfuegos. A Prefectura de Carabineros foi construída entre 1948 e 1952, no contexto do Plan Serena.
O cadastro do Ministério de Bienes Nacionales descreve uma construção de concreto armado, com três pavimentos, cores vermelha e branca e ornamentos que reinterpretam o neocolonial californiano.
O contraste é esclarecedor. A estrutura pertence às técnicas construtivas do século XX, enquanto parte de sua expressão visual remete a referências históricas.
Sua implantação também participa da paisagem da rua. O edifício apresenta fachada contínua, acompanhando o alinhamento urbano, em vez de aparecer como um objeto isolado no terreno.
Observar apenas os ornamentos pode sugerir uma idade. Conhecer a data, o material e a posição do prédio permite compreender outra história: a de uma instituição moderna inserida em um conjunto que procurava manter continuidade visual.

Há patrimônio anterior ao plano
A Casa Piñera e a Casa Carmona ajudam a evitar a interpretação oposta, igualmente imprecisa, de que tudo teria sido criado no século XX.
O decreto de proteção patrimonial de 1981 registra a Casa Piñera como construída por volta de 1840 e a Casa Carmona, por volta de 1855. São exemplos de construções anteriores ao Plan Serena e posteriores ao período colonial.
A própria Catedral aparece nesse documento com referência à construção de 1844.
Essas datas mostram por que a palavra “antigo” precisa ser usada com cuidado. Há diferenças entre uma cidade fundada no século XVI, uma residência do século XIX e um edifício neocolonial do século XX.
A paisagem aproxima essas temporalidades, mas a pesquisa permite distingui-las.
A sensação de conjunto também depende das ruas e praças
Uma fachada não explica sozinha a percepção do centro. A posição dos edifícios, os espaços abertos e as relações entre ruas também orientam o olhar.
Os planos de detalhe municipais publicados em 2023 descrevem a avenida Pedro Pablo Muñoz junto à borda de uma das terrazas que formam a cidade.
Esse posicionamento relaciona a organização urbana ao relevo e à abertura visual para a baía de Coquimbo.
O mesmo documento observa que o recuo da Intendencia amplia a percepção do espaço da praça. Nesse caso, importa tanto a arquitetura quanto a distância entre a construção e o espaço público.
Essas relações ajudam a compreender a homogeneidade estudada no livro “El Plan Serena y la ciudad temática”.
As intervenções envolveram praças, edifícios públicos e conjuntos habitacionais, articulando a aparência das construções com a configuração urbana.
Como reconhecer essas camadas no centro de La Serena?
Uma leitura mais cuidadosa pode começar por três perguntas: quando a construção foi feita, qual função recebeu e como se relaciona com a rua.
Na Prefectura, a data e o concreto armado revelam uma obra do século XX. Nas casas Piñera e Carmona, os registros apontam para outro momento da cidade. Na Intendencia, a relação com a praça ajuda a perceber a dimensão urbana da intervenção.
O reconhecimento do centro como Zona Típica, em 1981, acrescentou uma etapa de proteção a esse conjunto.
A aparência histórica de La Serena foi sendo construída por permanências, substituições e decisões de planejamento. O interesse está justamente nessa sobreposição: uma cidade antiga que também escolheu referências do passado para dar forma à sua modernização.
Fontes e referências
- Centro Histórico de La Serena, Consejo de Monumentos Nacionales.
- Plan Serena, Memoria Chilena e Biblioteca Nacional do Chile.
- Primer ensayo urbanístico regional, modernidad en La Serena, 1946–1952, María Teresa Fierro Page.
- Prefectura de Carabineros, Ministério de Bienes Nacionales.
- Decreto 499 de 1981, Biblioteca del Congreso Nacional de Chile.
- Planos de detalhe do centro histórico, Decreto 2824 de 2023.
- El Plan Serena y la ciudad temática, Instituto de Estudios Urbanos y Territoriales UC.
Para explorar mais
- Centro Histórico de La Serena — Consejo de Monumentos Nacionales: consulte o cadastro para conhecer os períodos arquitetônicos presentes no conjunto protegido.
- Plan Serena — Memoria Chilena: conheça as intervenções do programa e compare as obras com os edifícios e espaços públicos apresentados no artigo.
Imagem Destacada
Fachada da Intendencia de Coquimbo, uma das construções associadas à transformação urbana do Plan Serena. Foto: Sfs90 / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.
