Cavernas da Oceania: como a água transforma a rocha?

Um rio atravessa uma passagem subterrânea. Do teto, estruturas finas apontam para o chão. Na parede, uma concha fossilizada registra uma época em que aquele material fazia parte de um ambiente marinho.

Esses elementos podem aparecer próximos, mas pertencem a processos e tempos diferentes. A rocha se formou antes da cavidade. O rio participou da transformação das passagens.

Os depósitos minerais cresceram quando a água encontrou condições para deixar parte do material que transportava.

Comparar cavernas da Oceania ajuda a separar essas histórias. Em Waitomo, na Nova Zelândia, a circulação da água conecta formas da superfície e do subsolo.

Em Jenolan e Cliefden, na Austrália, rios, depósitos minerais e fósseis acrescentam outras pistas sobre a transformação do terreno.

Como a água consegue dissolver calcário?

Uma rocha pode parecer impermeável e resistente quando seguramos um pequeno fragmento. No terreno, porém, ela apresenta fraturas e outras aberturas pelas quais a água pode circular.

O calcário contém principalmente carbonato de cálcio. A água da chuva incorpora dióxido de carbono do ar e pode receber mais desse gás ao atravessar o solo. Isso a torna levemente ácida e capaz de dissolver parte da rocha.

O processo começa em aberturas pequenas. A circulação repetida amplia algumas delas, criando caminhos que podem se transformar em condutos e galerias.

Essa dissolução é importante porque a água não precisa apenas arrancar fragmentos visíveis. Parte do material sai da rocha dissolvida e continua sendo transportada.

Com o tempo, essa transformação participa da formação de cavernas, depressões fechadas, nascentes e trechos em que cursos de água desaparecem no terreno. O conjunto dessas formas é chamado de carste.

Waitomo: a caverna faz parte de uma paisagem maior

Waitomo fica na Ilha Norte da Nova Zelândia. A região é conhecida pelas cavernas, mas sua paisagem cárstica também inclui paredões calcários, depressões, arcos e túneis.

O Department of Conservation descreve a reserva de Ruakuri como um lugar onde essas formas aparecem relacionadas ao curso do Waitomo Stream.

O percurso acompanha o rio e passa por afloramentos e uma ponte natural sobre uma passagem subterrânea.

Essas relações mostram que a entrada da caverna não é o início de um mundo independente. O rio, a rocha exposta e as galerias pertencem a um mesmo sistema de circulação e transformação da água.

Observar apenas o salão subterrâneo limita a interpretação. A superfície oferece pistas sobre os caminhos pelos quais a água chega e sobre a continuidade entre o vale e as passagens.

A comparação também evita confundir estruturas naturais com espaços abertos pelo trabalho humano.

Nas construções na rocha na Espanha, por exemplo, há diferenças entre aproveitar abrigos existentes e escavar cômodos. Aqui, a investigação se concentra na formação natural das cavidades.

Jenolan: nem toda passagem se desenvolveu da mesma forma

Nas cavernas de Jenolan, em Nova Gales do Sul, a água ajuda a explicar diferenças dentro de um único conjunto.

A documentação do local identifica a Imperial Cave como uma caverna com rio ativo. Já uma parte da Diamond Cave é descrita como uma passagem que esteve completamente preenchida por água.

Essa diferença importa. Uma galeria por onde corre um rio atualmente não apresenta necessariamente a mesma história de outra formada enquanto estava inundada.

Jenolan também possui salões cuja configuração envolve a queda de blocos, após o enfraquecimento de camadas ou estruturas da rocha. A dissolução abre espaços, mas outros processos podem modificar sua forma.

Por isso, um salão amplo não permite concluir, sozinho, que um rio daquele tamanho o escavou. Sua aparência atual pode reunir etapas diferentes de abertura, circulação da água e desmoronamento.

Por que a água também forma estalactites e estalagmites?

A água que atravessa o calcário pode chegar à caverna carregando componentes dissolvidos da rocha. Quando alcança uma passagem com ar, pode perder parte do dióxido de carbono que continha.

Essa mudança favorece a deposição de carbonato de cálcio, frequentemente na forma do mineral calcita. O material transportado pela água passa a integrar uma estrutura sólida.

Formações minerais na Imperial Cave, em Jenolan. A deposição sucessiva acrescenta estruturas ao interior da cavidade. Crédito Fotografia: Toby Hudson, via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 3.0.

As estalactites crescem a partir do teto. As estalagmites se desenvolvem no chão, onde chegam gotas. A deposição sucessiva pode produzir formas maiores, mas depende da continuidade e das condições do processo.

O caminho da água também participa do formato. Uma gota que se desprende do teto não deposita material da mesma maneira que uma película escorrendo sobre uma parede.

Essas estruturas são chamadas de espeleotemas. O nome reúne depósitos minerais formados no ambiente das cavernas, incluindo formas pendentes, elevações no chão e revestimentos sobre superfícies.

Não há contradição entre dissolver e depositar. A água encontra condições químicas diferentes ao longo do percurso. Em um trecho, transporta componentes da rocha; em outro, deixa parte deles como depósito.

Cliefden: a idade da rocha não é a idade da caverna

Cliefden, também em Nova Gales do Sul, oferece uma distinção importante para interpretar notícias sobre cavernas antigas.

O registro patrimonial australiano descreve rochas do Ordoviciano Superior com fósseis de organismos marinhos. Elas documentam uma história ligada a ambientes de uma antiga ilha vulcânica e às águas que a cercavam.

O mesmo documento distingue essa história do sistema cárstico posterior. A formação das rochas e a abertura das cavidades não correspondem ao mesmo acontecimento.

Encontrar um fóssil marinho numa parede não significa que a caverna já estivesse aberta quando aquele organismo viveu.

O fóssil pode ter sido incorporado aos sedimentos que deram origem à rocha, muito antes de a água ampliar suas fraturas.

Também não significa que os depósitos pendentes tenham a mesma idade da parede. Estalactites e outros espeleotemas acrescentam etapas à história de um espaço já existente.

Assim, três perguntas precisam permanecer separadas: quando a rocha se formou, quando a cavidade se desenvolveu e quando determinado depósito mineral cresceu.

O brilho de Waitomo conta outra história

Nas cavernas de Waitomo, pontos luminosos acrescentam um fenômeno biológico à paisagem. Eles não são uma consequência da dissolução do calcário nem do brilho natural dos depósitos minerais.

Os glowworms neozelandeses são larvas de moscas do grupo dos mosquitos-dos-fungos. Produzem luz e utilizam fios pegajosos para capturar pequenos animais atraídos pelo brilho.

Segundo a enciclopédia Te Ara, esses organismos precisam de ambientes úmidos e abrigados para construir suas armadilhas.

Cavernas oferecem algumas dessas condições, mas eles também podem ocorrer em locais protegidos nas florestas.

Distinguir os processos melhora a leitura do lugar: a água participa da formação do espaço e de suas condições ambientais; os organismos produzem a luz.

A proteção começa na superfície das cavernas da Oceania

A circulação da água conecta o subsolo ao terreno acima dele. Por isso, a conservação não se limita a impedir que visitantes toquem nos depósitos minerais.

O plano de conservação de Waikato, publicado em 2014, registra a importância da gestão da bacia de Waitomo para manter os sistemas de cavernas.

Entre as ações descritas estavam cercamento para afastar animais dos cursos de água, plantio nas margens e controle da erosão.

Essas medidas ajudam a reconhecer uma relação territorial: o que acontece nas encostas e nos rios da superfície pode afetar o ambiente subterrâneo.

A caverna visível ao visitante é apenas parte desse conjunto. Suas águas, depósitos e organismos dependem de processos que ultrapassam a entrada.

Em Waitomo, acompanhe a relação entre o rio e as formas do terreno. Em Jenolan, diferencie a passagem com rio das galerias que tiveram outras condições de formação.

Em Cliefden, separe o registro marinho da rocha da história posterior das cavidades. A água transforma o subsolo, mas suas marcas precisam ser lidas em conjunto.

Fontes e referências

Para explorar mais

Imagem Destacada

Trecho do rio subterrâneo na Imperial Cave, em Jenolan, Austrália, mostrando a água entre as paredes da cavidade. Fotografia: Toby Hudson, via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 3.0.

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