Os balcões de madeira e as fachadas revestidas do centro histórico de Lima não mostram todos os materiais empregados nas construções.
Atrás de uma parede aparentemente uniforme, podem existir tijolos, pedra, terra ou um entramado de madeira e cana.
Essa diversidade ajuda a explicar como a arquitetura de Lima respondeu aos terremotos. Ao longo das reconstruções, materiais e técnicas foram combinados para reduzir o peso de partes dos edifícios e melhorar seu comportamento durante os abalos.
O processo também mudou espaços internos e níveis de ocupação. Na Casa Bodega y Quadra, escavações encontraram estruturas antigas sob camadas de aterro associadas às transformações posteriores aos terremotos.
O recorte deste artigo são casas e soluções construtivas do centro histórico. Elas permitem compreender parte dessa adaptação, sem representar todas as moradias da metrópole atual.
Neste artigo
Por que as reconstruções fazem parte da arquitetura de Lima?
Lima foi fundada pelos espanhóis em 1535, no vale do Rímac, em um território anteriormente ocupado. Sua posição na costa peruana a insere em uma região de intensa atividade sísmica.
Nessa margem do continente, a placa de Nazca mergulha sob a placa Sul-Americana. Esse movimento, chamado subducção, está relacionado à ocorrência de grandes terremotos.
O abalo de 28 de outubro de 1746 atingiu duramente Lima e Callao. No porto, a destruição foi agravada por um tsunami.
São acontecimentos relacionados, mas seus efeitos precisam ser distinguidos: a inundação costeira de Callao não explica os danos sísmicos nas casas do centro de Lima.
O episódio de 1746 tampouco foi o único a transformar a cidade. A UNESCO destaca também os terremotos de 1586 e 1687 na trajetória de mudanças arquitetônicas.
Por isso, um edifício histórico pode reunir materiais, reparos e soluções de momentos diferentes. Sua aparência atual não corresponde necessariamente à primeira construção realizada naquele terreno.
A quincha já existia antes dos grandes terremotos coloniais
A quincha é um sistema construtivo que combina uma estrutura de madeira com um entramado de cana, revestido com barro e camadas de acabamento.
Ela não foi inventada depois do terremoto de 1746. Técnicas de construção com entramados vegetais já eram utilizadas no período pré-hispânico.
Na arquitetura vice-reinal, esse conhecimento foi associado a práticas de carpintaria e a novas exigências de construção. O resultado permitiu empregar a quincha tanto em casas quanto em elementos de edifícios monumentais.
Sua leveza e flexibilidade favoreceram o uso nas partes altas. A documentação do World Monuments Fund registra sua aplicação em paredes de pavimentos superiores, balcões, torres e outros componentes arquitetônicos.
O terremoto de 1746 reforçou a adoção dessa solução. Em vez de uma substituição completa dos materiais anteriores, consolidou-se uma combinação: elementos mais pesados embaixo e estruturas mais leves acima.
O que mudava ao reduzir o peso do andar superior?
Durante um terremoto, o movimento do terreno solicita a estrutura do edifício. A massa das partes construídas influencia as forças envolvidas: reduzir o peso pode diminuir essas solicitações.
Isso ajuda a compreender a combinação registrada pela UNESCO para Lima: adobe e tijolos nos pavimentos inferiores, com quincha nos superiores.
O adobe é um bloco de terra moldado e seco sem queima. O tijolo cerâmico passa por cozimento. A quincha, por sua vez, organiza a parede a partir de um entramado, em vez de constituí-la apenas por blocos empilhados.
| Material ou sistema | Característica | Papel na leitura das casas históricas |
|---|---|---|
| Adobe | Blocos de terra secos sem queima | Presença de paredes espessas de terra |
| Tijolo | Unidades cerâmicas cozidas | Composição de paredes, aberturas e reforços |
| Madeira | Peças estruturais e de acabamento | Participação em pisos, coberturas, balcões e entramados |
| Quincha | Estrutura de madeira e cana revestida | Redução do peso de paredes e componentes superiores |
Essa combinação não torna qualquer casa automaticamente segura. O comportamento depende do conjunto, incluindo ligações, conservação, geometria e intervenções posteriores.
O Sencico, instituição peruana de formação e pesquisa em construção, realizou ensaios de simulação sísmica com módulos de adobe e quincha de dois pavimentos. A existência desses estudos reforça a necessidade de avaliar sistemas completos, em condições definidas, em vez de atribuir segurança apenas ao nome de um material.
Torre Tagle: o revestimento pode esconder a construção
O Palácio de Torre Tagle ajuda a observar a diferença entre aparência e composição material. Seus balcões fechados de madeira e sua entrada ornamentada são elementos reconhecíveis da arquitetura histórica de Lima.
Mas uma intervenção de conservação revelou algo menos evidente. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Peru, uma porção da fachada estava coberta por concreto que ocultava a técnica anterior.
Uma abertura de investigação permitiu identificar elementos de pedra e fiadas de tijolos ligados por argamassa de cal. Parte dessa evidência foi mantida visível para documentar a construção.
O exemplo não permite afirmar que cada componente da fachada resulte de determinado terremoto. Ele mostra que a superfície vista da rua pode esconder materiais e intervenções de diferentes períodos.
Também impede uma leitura simplificada dos balcões: eles participam da arquitetura doméstica, mas sua presença, isoladamente, não comprova a estrutura das paredes ao redor nem a resistência sísmica do edifício.
Bodega y Quadra: reconstruir também significou enterrar
Na Casa Bodega y Quadra, a arqueologia acrescenta outra dimensão à história das reconstruções.
O estudo de Miguel Fhon identificou estruturas abaixo do nível atual da casa, cobertas por sucessivas camadas de aterro.

A pesquisa relaciona esse soterramento ao aproveitamento de escombros e resíduos, incluindo materiais associados aos grandes terremotos dos séculos XVII e XVIII.
O terreno apresentava desníveis junto à encosta do rio Rímac. Os aterros contribuíram para nivelar setores e criar uma plataforma sobre a qual foram realizadas construções posteriores.
Assim, reconstruir não significou apenas levantar novamente uma parede. Também envolveu modificar a superfície do terreno e cobrir espaços anteriores.
A casa preserva ainda uma organização com pátio, corredores, balcões e passagem de entrada. Na parte posterior, a área arqueológica permite reconhecer que o edifício atual ocupa um lugar transformado por diferentes usos e etapas construtivas.
Esse caso mostra por que uma fachada conservada oferece apenas parte da história de uma casa.
A adaptação continuou depois de cada reconstrução
A arquitetura de Lima não ficou congelada após 1746. Novos terremotos, reformas e mudanças de uso continuaram a alterar os edifícios.
A recuperação da própria Casa Bodega y Quadra, executada entre 2010 e 2012 pela empresa municipal EMILIMA, encontrou coberturas, paredes, balcões e pisos deteriorados. A conservação precisou enfrentar uma condição acumulada ao longo do tempo.
Materiais tradicionais também exigem manutenção. Madeira e cana podem ser afetadas por umidade, água e insetos; revestimentos e ligações precisam permanecer em condições adequadas.
Os terremotos mudaram as casas de Lima ao favorecer combinações mais leves nas partes altas e ao desencadear reconstruções que reorganizaram os espaços. A paisagem histórica resulta dessa relação entre técnicas anteriores, aprendizado construtivo e sucessivas intervenções.
Olhar uma dessas casas, portanto, envolve observar tanto o que aparece na fachada quanto aquilo que a pesquisa revela por trás das paredes e sob o piso.
Fontes e Referências
- UNESCO: Centro Histórico de Lima
- Instituto Geofísico do Peru: o terremoto e o tsunami de 1746
- World Monuments Fund: documentação sobre o centro histórico e a quincha
- Sencico: ensaios de simulação sísmica em módulos de adobe e quincha
- Ministério das Relações Exteriores do Peru: técnica construtiva revelada em Torre Tagle
- Fhon, Miguel: escavações arqueológicas na Casa Bodega y Quadra
- Mincetur: Museu de Sítio da Casa Bodega y Quadra
- EMILIMA: restauração da Casa Bodega y Quadra
Para explorar mais
- Examine a descrição arquitetônica do centro histórico na UNESCO
- Conheça os materiais identificados na fachada de Torre Tagle
- Consulte os estudos do Sencico sobre adobe e quincha
Imagem Destacada
Fachada do Palácio de Torre Tagle, com balcões fechados de madeira. A aparência externa reúne elementos arquitetônicos cuja composição material exige documentação e investigação. Foto: Juan José Pacheco Ibarra, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
