Na orla de Balneário Camboriú, os edifícios acompanham o arco da Praia Central e formam uma frente urbana que pode ser reconhecida de longe.
Algumas torres se destacam acima das demais, mas a verticalização não começou com os empreendimentos mais recentes.
Essa paisagem foi construída ao longo de décadas. A transformação de um lugar de veraneio em destino turístico e mercado de imóveis encontrou regras que permitiram ampliar o aproveitamento dos terrenos.
Construir em altura tornou possível concentrar área edificada em localizações disputadas.
O mar e os morros ajudam a situar a cidade, mas não explicam sozinhos suas torres. Para compreender por que tantos prédios altos foram construídos ali, é preciso acompanhar a relação entre turismo, propriedade da terra e decisões urbanísticas.
O foco deste artigo é a orla e a região da Praia Central, sem tratar todo o município como uma paisagem uniforme.
Neste artigo
Antes das torres, a formação de um lugar de veraneio
A história turística antecede a emancipação municipal. O histórico reunido pelo IBGE registra uma fase de ocupação voltada aos banhistas a partir de 1930 e a construção do primeiro hotel em 1932, na confluência das avenidas Central e Atlântica.
Balneário Camboriú tornou-se município em 1964. Até então, a praia integrava o território de Camboriú, município vizinho que permanece distinto.
Na dissertação de Isabella Cristina de Souza, fotografias, entrevistas, legislação e periódicos permitem acompanhar outras mudanças. A pesquisa identifica uma infraestrutura turística em formação na década de 1950, quando casas de madeira, ruas de barro e comércio por carroças ainda participavam da paisagem.
A partir dos anos 1960, os edifícios ganharam presença crescente. A autora também examina como a ideia de progresso acompanhou essa transformação.
A praia, portanto, já atraía visitantes antes de receber sua configuração vertical. A construção em altura se desenvolveu sobre uma localização cujo interesse turístico estava sendo consolidado.
O que o turismo tem a ver com a verticalização?
Uma cidade turística recebe pessoas que utilizam seus espaços por períodos diferentes. Há moradores permanentes, visitantes hospedados e proprietários que ocupam seus imóveis apenas em determinadas épocas.
O estudo de Anderson Beuting e Bruno César Volpato Martins relaciona a evolução da verticalização local ao desenvolvimento da orla e ao aumento das populações fixa e flutuante. O levantamento também identifica a expansão dos edifícios para bairros próximos ao centro.
Essa combinação ajuda a compreender a procura por novos empreendimentos. A produção imobiliária atende a usos que ultrapassam a moradia cotidiana de quem vive o ano inteiro na cidade.
Por isso, contar habitantes permanentes não basta para explicar a quantidade de apartamentos. Também seria necessário conhecer a ocupação sazonal e a utilização dos imóveis.
Da mesma forma, observar muitas torres não permite concluir quantas pessoas estão presentes nelas. Altura, quantidade de unidades e ocupação efetiva são informações diferentes.
O terreno tem uma área; a construção pode multiplicá-la
A verticalização permite distribuir pavimentos sobre uma mesma base. Mas a possibilidade de fazer isso depende de regras, além das condições técnicas e econômicas da obra.
Um instrumento importante é o coeficiente de aproveitamento. Ele relaciona a área do terreno com a área computável que pode ser construída.
Como exemplo simplificado, um terreno de mil metros quadrados com coeficiente dois permitiria dois mil metros quadrados de área computável. Esse cálculo, sozinho, não define a altura: recuos, ocupação do lote e outras exigências também participam do projeto.
Na pesquisa publicada por Marina Toneli Siqueira e Carolina Silva e Lima Schleder, as operações urbanas consorciadas aparecem entre os instrumentos que contribuíram para ampliar o potencial construtivo em Balneário Camboriú.
As autoras analisam criticamente a utilização desses benefícios fora dos perímetros das operações estudadas. A conclusão é vinculada aos casos e ao período investigados, não uma descrição automática de toda aprovação atual.
A relação fundamental permanece: a paisagem construída depende também de decisões sobre quanto e como se pode edificar.
Os prédios mais recentes pertencem a outra etapa
A pesquisa de mestrado de Carolina Schleder, defendida na USP em 2024, organiza a verticalização da Praia Central em três momentos: crescimento inicial, multiplicação do padrão e crescimento exponencial.
Essa periodização ajuda a evitar uma leitura em que todos os edifícios seriam resultado de uma mesma fase. A torre que se destaca hoje faz parte de uma história que já tinha produzido sucessivas mudanças no padrão construtivo.
O trabalho examina índices de construção, instrumentos urbanísticos e entrevistas com representantes do poder público, da academia e de incorporadoras. Também investiga a imagem da cidade e o marketing urbano na valorização da Praia Central.
Nessa interpretação, os edifícios participam de duas relações: são produtos imobiliários e elementos usados para apresentar a cidade.
A altura visível no horizonte passa, assim, a integrar sua imagem pública. Entender esse processo exige ir além da comparação entre recordes de torres.
Os morros obrigaram a cidade a crescer para cima?
A vista elevada mostra a concentração urbana junto ao arco da praia e sua relação com o relevo. Essa observação situa a ocupação, mas não demonstra que determinada altura fosse inevitável.
Um mesmo terreno pode receber soluções construtivas diferentes, conforme as regras e os objetivos do empreendimento. A forma final exige decisões sobre ocupação, número e tamanho das unidades, circulação e espaços comuns.
Por isso, a presença de morros não substitui a investigação dos mecanismos econômicos e urbanísticos documentados nas pesquisas.
Também é preciso cuidar da escala. O IBGE registrou 139.155 habitantes no município no Censo de 2022. Esse total descreve a população municipal, não a quantidade de moradores da primeira linha de edifícios.
A densidade populacional de uma cidade inteira não informa, sozinha, como seus moradores estão distribuídos nem como cada trecho da orla é utilizado. O contraste entre uma fotografia das torres e um dado municipal exige essa distinção.
A praia também foi transformada
A paisagem da orla não mudou apenas pela substituição de construções baixas por edifícios. A faixa de areia passou por uma intervenção de grande escala em 2021.
Segundo o balanço publicado pela prefeitura em 2022, mais de dois milhões de metros cúbicos de areia foram acrescentados à Praia Central. O município informou uma ampliação da largura média de aproximadamente 25 para 70 metros.
Esses valores descrevem o resultado informado naquele balanço. Não representam uma largura permanente e igual em todos os pontos da praia.
A intervenção também importa para a leitura das imagens. Uma fotografia anterior ao alargamento registra outra relação entre edifícios, avenida, areia e água.

O estudo sobre gestão fundiária apresentado por Jhunia Lima, Everton da Silva e Giancarlo Zacchi analisa intervenções como alargamento, macrodrenagem e reurbanização junto às pressões imobiliárias. Os autores apontam tensões entre valorização, turismo e preservação ambiental.
A praia ampliada integra, portanto, uma transformação urbana que envolve tanto construções privadas quanto intervenções públicas.
O que as torres mostram sobre a orla de Balneário Camboriú?
A vista dos edifícios permite reconhecer diferenças de altura, proximidade e implantação. Para explicar essas formas, porém, é necessário cruzar a imagem com datas, pesquisas e decisões de planejamento.
As construções altas se multiplicaram em uma localização valorizada pelo turismo, procurada para moradia, estadia e investimento. Regras urbanísticas e instrumentos de ampliação do potencial construtivo participaram desse processo.
A paisagem registra essas escolhas acumuladas. Suas consequências também precisam ser observadas na escala da rua: acessos, circulação, espaços públicos e relação com a praia.
Perguntar por que existem tantos prédios altos conduz, assim, a outra questão: como os benefícios e as demandas dessa ocupação se distribuem pela cidade? A altura é a parte mais visível de uma transformação que alcança o território ao redor.
Fontes e referências
- Histórico de Balneário Camboriú, IBGE.
- Orla marítima de Balneário Camboriú: lugares urbanos e práticas sociais ao longo da segunda metade do século XX, Isabella Cristina de Souza, UFSC, 2016.
- Evolução histórica da verticalização de Balneário Camboriú, Anderson Beuting e Bruno César Volpato Martins, 2016.
- Operações Urbanas Consorciadas em Balneário Camboriú: o desvirtuamento do solo criado, Marina Toneli Siqueira e Carolina Silva e Lima Schleder, 2021.
- Capital e lei no processo recente de verticalização da Praia Central de Balneário Camboriú, Carolina Silva e Lima Schleder, USP, 2024.
- Gestão Fundiária e Turismo em Áreas Costeiras: um estudo de caso em Balneário Camboriú.
- Balneário Camboriú: Cidades e Estados, IBGE.
- Balanço de um ano do início do alargamento da Praia Central, Prefeitura de Balneário Camboriú, 2022.
Para explorar mais
- Leia o estudo sobre operações urbanas e potencial construtivo, com análise das relações entre instrumentos urbanísticos e verticalização.
- Consulte a pesquisa da USP sobre capital e legislação na Praia Central.
- Explore os dados municipais do IBGE, observando o ano de referência de cada indicador.
Imagem Destacada
Vista parcial de Balneário Camboriú a partir do Parque Unipraias, em abril de 2023, com a concentração de edifícios ao longo da Praia Central. Foto: Trustable / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
