No mapa do centro de Goiânia, as avenidas Goiás, Tocantins e Araguaia formam um desenho reconhecível: três eixos se aproximam da Praça Cívica, onde se concentra parte dos edifícios ligados à criação da capital.
Essa disposição foi uma escolha do projeto urbano de Attílio Corrêa Lima. As avenidas organizavam deslocamentos, mas também orientavam o olhar para o centro administrativo.
A posição dos edifícios públicos, a abertura das vias e a perspectiva trabalhavam juntas para dar destaque à sede do governo.
A explicação se refere ao núcleo planejado e, especialmente, a essas três avenidas. Nem todas as ruas do centro convergem para a praça, e a cidade atual não se resume ao desenho original.
É justamente a combinação entre eixos diagonais, ruas regulares e edifícios públicos que permite compreender a proposta.
Neste artigo
Uma nova capital precisava ganhar forma
Goiânia começou a ser construída na década de 1930 para receber a capital de Goiás, até então instalada na cidade de Goiás.
A mudança ocorreu em etapas. O histórico publicado pela Casa Civil estadual registra a criação do município em 1935 e a transferência oficial da capital em 1937. Já a inauguração oficial, associada ao chamado batismo cultural, aconteceu em 1942.

Essas datas não são intercambiáveis. Construir a cidade, transferir repartições e realizar uma cerimônia de inauguração foram acontecimentos diferentes.
A nova capital precisava abrigar o governo e oferecer uma organização urbana compatível com esse papel. A Praça Cívica e os edifícios públicos ao redor constituíam um centro cívico, referência espacial do projeto.
Sua localização no desenho das avenidas ajuda a perceber como uma decisão política, a transferência da capital, recebeu uma expressão material.
O governo não apareceria apenas nos nomes dos prédios: sua presença seria destacada na composição do espaço.
Três avenidas, um ponto de referência
O sistema não foi formado por ruas lançadas aleatoriamente em direção à praça. Cada eixo participava de uma organização mais ampla.
A documentação municipal sobre o planejamento viário descreve a Avenida Goiás, inicialmente denominada Pedro Ludovico, como ligação entre o centro administrativo e a estação ferroviária.
As avenidas Araguaia e Tocantins partiam da mesma referência administrativa em direções diferentes. No plano, a primeira se dirigia ao Parque Botafogo; a segunda, ao aeródromo.
A Avenida Paranaíba articulava esses setores em curva. Já a Anhanguera atravessava o conjunto, com papel comercial e de ligação.
Assim, as diagonais faziam parte de uma rede com destinos e funções distintos. A convergência na Praça Cívica combinava a organização desses percursos com a concentração de edifícios públicos.
Olhar apenas para as três avenidas pode sugerir um leque. Acrescentar as vias transversais mostra um sistema mais complexo, com cruzamentos e conexões que também estruturavam o centro.
A perspectiva colocava o governo em evidência
Uma avenida pode servir ao deslocamento e, ao mesmo tempo, construir uma direção para o olhar.
O documento municipal publicado em 2002 relaciona o traçado de Goiânia ao uso da topografia e da perspectiva para destacar o centro administrativo e o palácio do governo, implantados em uma posição elevada do núcleo projetado.
Nessa composição, a aproximação pela avenida permite que o espaço administrativo funcione como referência. O percurso e o destino visual passam a participar da mesma experiência urbana.
O texto também registra a intenção de conferir à Avenida Goiás um tratamento paisagístico especial e condições para manifestações e festas cívicas.
Portanto, a largura e o desenho das vias tinham funções que ultrapassavam a passagem de veículos. A nova capital também precisava de espaços de representação pública.
Essa leitura não exige imaginar que cada pessoa perceba hoje o efeito exatamente como foi concebido. Arborização, construções e intervenções posteriores modificam a experiência, enquanto a direção dos eixos continua reconhecível.

Por que esse desenho é associado ao urbanismo barroco?
O Iphan caracteriza o plano como um desenho de concepção barroca que utilizou recursos modernos para produzir uma composição artística e monumental.
A expressão se refere à organização urbana, especialmente às perspectivas e à importância atribuída a determinados pontos. Ela não significa que os edifícios de Goiânia tenham sido construídos no período barroco.
Também é necessário separar o traçado das ruas da linguagem arquitetônica dos prédios. No núcleo pioneiro, o art déco participou da aparência das primeiras construções públicas.
Uma coisa é a relação entre avenida, praça e edifício. Outra é a composição da fachada, com seus volumes e elementos decorativos.
Essas escolhas se encontram na paisagem, mas não são sinônimas. Reduzir toda a proposta a “uma cidade modernista” deixaria de explicar a combinação de referências empregada na nova capital.
O centro também tem ruas em grade
A presença de avenidas diagonais não elimina as quadras regulares.
A apresentação da Assembleia Legislativa de Goiás sobre o patrimônio local descreve uma composição que combina vias em formato de xadrez com os eixos principais.
A organização administrativa se relacionava à Praça Cívica, enquanto atividades comerciais encontravam referência na Anhanguera e em ruas próximas.
Isso ajuda a responder a uma aparente contradição do mapa: por que algumas vias apontam para a praça enquanto outras seguem paralelas ou perpendiculares entre si?
Porque o projeto combinava formas diferentes para organizar funções e percursos. As diagonais conectavam referências urbanas e reforçavam perspectivas; a grade distribuía quadras e acessos.
A convergência das avenidas, portanto, não explica sozinha todo o arruamento. Ela é uma parte especialmente visível da estrutura planejada.
A praça e as avenidas continuaram sendo modificadas
O desenho original não permaneceu intocado enquanto a cidade crescia.
Um registro do Iphan sobre a aprovação de intervenções do BRT Norte-Sul na Praça Cívica descreve propostas de estações, reorganização de canteiros e mudanças nos fluxos de veículos e pedestres.
O caso mostra que a preservação de um núcleo histórico envolve compatibilizar sua configuração com novas necessidades de circulação. A existência de patrimônio protegido não encerra o uso cotidiano do espaço.
Também não basta conservar uma fachada isolada. Uma estação, um canteiro ou uma alteração viária pode modificar a relação entre o observador, a praça e os edifícios.
Por isso, reconhecer o projeto exige acompanhar tanto as permanências quanto as intervenções. O traçado é uma herança utilizada e transformada, não apenas um desenho guardado em arquivo.
O que preservar nesse encontro de avenidas?
A Portaria Iphan nº 201, de 2024, trata expressamente da Praça Cívica como elemento irradiador do traçado. Entre suas diretrizes está a manutenção das perspectivas das avenidas Goiás, Tocantins e Araguaia, além de outras vias identificadas no documento.
A proteção também considera a disposição das ruas, os canteiros, a arborização e a relação das edificações com o espaço público.
Isso amplia o entendimento do patrimônio. O valor não está somente no palácio, no coreto ou em outro edifício reconhecido individualmente, mas nas relações que permitem compreendê-los como conjunto.
Ao observar o centro de Goiânia, vale acompanhar três elementos: a direção das avenidas, os espaços abertos diante das construções públicas e as ruas que atravessam os eixos principais.
As avenidas convergem para a Praça Cívica porque o plano procurou organizar a circulação e tornar o centro administrativo uma referência visual.
O encontro das vias registra uma maneira de apresentar o governo e de dar forma à nova capital.
Fontes e referências
- História da Cidade de Goiânia, Casa Civil de Goiás.
- Plano de Mobilidade: antecedentes da urbanização e planejamento viário, Prefeitura de Goiânia.
- Diário Oficial de Goiânia nº 2.985, de 19 de agosto de 2002, discussão sobre o traçado e a preservação do centro.
- Obras do BRT na Praça Cívica: aprovação e contexto patrimonial, Iphan.
- Goiânia: prédios icônicos, Assembleia Legislativa de Goiás.
- Portaria Iphan nº 201, de 25 de outubro de 2024.
Para explorar mais
- Consulte as diretrizes do Iphan para o conjunto de Goiânia, especialmente os artigos sobre o traçado viário.
- Veja o registro de uma fotografia da Praça Cívica e da Avenida Goiás, de aproximadamente 1949, no Museu Antropológico da UFG.
- Conheça a cronologia da formação da capital no histórico da Casa Civil.
Imagem Destacada
O Palácio das Esmeraldas em 1940: a sede do governo participa do conjunto administrativo destacado pelo desenho do centro de Goiânia. Domínio público / Acervo Arquivo Nacional, Fundo Agência Nacional.
